quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Parte 4 - Luz, camera e ação.

A partir de certa hora, eu apenas me reclinava sobre a sacada e observava por vários minutos aquelas pessoas dançar, completamente extasiadas – algumas, inclusive, sob o efeito de drogas. Quando isso acontecia, eu retirava a minha câmera e filmava aqueles desconhecidos em seus momentos de glória. Havia aquele rapaz muito bêbado que chamava atenção, aquela outra menina que gostava de dançar até o chão. Bem no meio havia um casal que se beijava e logo atrás tinha aquele rapaz tímido que ficava balançando a cabeça. Olhando no visor da máquina, perdido, perto da escada havia um rapaz. Algo nele, perto da escada que dava acesso a parte superior, me encantava; de olhos fechados, ele usava suas mãos para dançar majestosamente – como se aquilo fosse a sua vida. Seus movimentos eram coordenados e isso o permitia segurar a bebida transparente no copo de plástico enquanto se movia. Em alguns momentos ele parecia desaparecer daquele lugar e ir para outra dimensão; um lugar em que todos eram felizes.
A câmera repousa nele, gravando por alguns minutos aquela tranqüilidade. Ele abre os olhos, despertando de sua bela vida. Olha para os cantos, procurando alguém. Bebe um pouco e olha em minha direção. Imediatamente eu movo a câmera para outra pessoa – um bêbado que dançava ridiculamente. Discretamente tento reposicionar a câmera no rosto do garoto da escada. Ele ainda olhava pra mim. Eu, um pouco reticente, decido continuar filmando. Ele, sério, continua olhando na minha direção, como se quase adivinhando que entre várias pessoas naquele lugar eu realmente o filmava.
Ele levanta a cerveja em minha direção e acena. Sorri e logo depois vai embora.
Pouco depois o vejo subindo a escada, sem dificuldades para me filmar. Decido continuar filmando. Ele chegou um pouco destemido, visivelmente envergonhado, perguntando se nós poderíamos conversar. Na mão, uma cerveja. “Cê quer?” Eu acenei e sorri, mas estava muito escuro pra ele poder perceber. Despertei da monotaneidade que ficar observando as outras pessoas dançar causa e entrei em um novo clima de liberdade e simplicidade que signifivava conseguir amor facilmente.
A música era patética, como sempre, mas todo mundo fingia gostar, porque afinal de contas, era sábado a noite e todos esperavam se divertir. A grande verdade é que ninguém se divertia – isso estava gravado. Todos fingiam que estar naquele lugar significava diversão. No dia seguinte, provavelmente, eles contariam aos amigos que dançaram pencas, que beberam pencas, que pegaram pencas, que estão de ressaca e que eles deveriam ter ido.
Eu pensava nessas coisas.
Eu notava que ele tentava falar alguma coisa, mas eu não conseguia ouvir. Eu sinalizei com o meu dedo apontado ao ouvido, sinal suficiente para ele entender que tinha muito barulho. Ele sorriu, olhou pra baixo e levantou as mãos, aproveitando a música. Eu simplesmente dei um longo gole; a cerveja estava com um gosto horrível.
Ele tentou novamente falar algo, dessa vez gritando mais próximo do meu ouvido. Eu ainda não havia entendido, mas balancei a cabeça e disse sorrindo: eéééééé!! Então, ele chegou mais perto e pôs a mão na minha cintura, me empurrando contra o corpo dele. Pude sentir a barriga definida – realmente, era alguém bonito. Ele chegou ainda mais perto e dessa vez falou mais baixo: me beija.
De repente, a música parou enquanto eu me concentrava nos seus lábios úmidos de cerveja, sentindo aquele bafo meio gelado, meio incomodo e meio sedutor. Fixei meu olhar no rosto dele e sorri. O mais engraçado é que eu havia entendido aquilo. “Me beija”. Pus a palma da minha mão no seu rosto.
- Melhor não.
Ele riu um pouco, de cabeça baixa. Quis saber por quê. Eu apenas dei de ombros e fui embora pra outro lugar. Enquanto eu tentava passar pelas pessoas, eu notei que ele me seguia. Fiquei um pouco nervoso; minhas pernas ainda trêmulas e meu coração acelerado denunciavam a minha fuga. Por entre as pessoas eu não ouvia nem enxergava nada além da saída. Olhei pra trás, procurando seu vulto; apenas notei suas as roupas: camisa gola pólo listrada e calça escura. Tinha um cheiro forte.
Ao constatar que ele havia desistido, fui ao caixa e paguei o que tinha consumido. Ao lado, em um sofá, duas meninas choravam; algo sobre traição de amigos. Estavam bêbadas, claro. A moça oferecia meu troco e eu devolvia um gentil sorriso seguido de um “muito obrigado, boa noite a senhora”.
Sentei no banco de pedra que ficava do lado de fora da boate. Ainda era possível ouvir a música abafada que ditava o ritmo da bendita felicidade que eu nunca conseguia encontrar naquele lugar. Meus ouvidos faziam aquele som estranho de quem sai de um lugar com muito barulho. Com pouco tempo lá fora, pude perceber que era estranhamente calmo do lado de fora. O silêncio só era quebrado pela conversa alta dos taxistas com as garotas de programa.
Retirei a câmera do meu bolso e revi os vídeos – sentindo, dessa vez, raiva, por não ter permanecido e aproveitado. Como eu poderia me denominar feliz, se nem ao menos consigo ficar em um lugar cheio de felicidade? Revi os vídeos dos estranhos, pensando em talvez editar e fazer um documentário sobre essa vida de noite. Uma risada alta cruzava a rua inteira. Discretamente apontei minha câmera para a loira de mini saia preta.
Por alguns minutos foi possível escutar as aventuras recentes da garota de programa. Ela falava dos fatos engraçados, dos ócios do oficio e de como garota de programa era mal remunerada. Falava dos produtos de beleza, das exigências que os senhores faziam e de como eles a tratavam bem. O taxista, de repente, olha em minha direção e imediatamente a loira se aproxima, desfilando. Ao chegar mais perto da luz pude perceber que suas feições eram mais masculinas. Era um homem ou uma mulher?
- Oi gatinho, me filmando né?
Fiquei calado.
- Calma, calma, pode filmar se você quiser. Sem paranóia ok? É 100 reais. Sou ativa e passiva. O que você quiser.
Acenei com a cabeça e apontei a câmera para a sua face.
- Meu nome é Paola. Como o gatinho se chama?
- Carlos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Parte 3 - O silêncio impertubável das folhas ancestrais,

- Alice.
Eu disse baixo o nome, assim, seco, sem vida, como se fosse um substantivo qualquer, quando percebi alguém de cabelo curto se aproximar. Era ela acompanhada de seu semblante preocupado – as sobrancelhas denunciavam dramaticamente que algo acontecera a pouco. Me pergunto como ela conseguiu me encontrar sem ao menos ter me ligado para confirmar o nosso almoço.
- Beto, Beto, Beto!
Pos a sua mãozinha na testa e sentou em uma parte da raiz. Logo começou a falar mais e mais de como fora a sua aula e o quão medíocre ela se sentiu ao constatar que ela era a única do seu curso que realmente gostava de moda pela moda.
- Alice, você deveria fazer outra coisa.
- Tá louco? Não, não, não! Eu me recuso a desistir logo tão perto de me formar. Quando eu me formar tudo vai ser diferente, vou poder viver da minha moda, e não dessas coisas fabricadas para agradar e dar dinheiro. Eu me pergunto o que seria da Amanda sem as coisas de marca. Não posso negar que são lindas; realmente são. Mas ela não é aquilo, ela é apenas a marca, e isso ta errado. Você ficou aqui o dia inteiro?
Acenei positivamente. Alice tinha razão, em partes. Eu me sentia bem com minhas roupas de marca. Me sinto tão valorizado. Talvez essa Amanda ai apenas queria isso: valor. Deve ser uma dessas pessoas com dinheiro que gostam de viver em um mundo compartilhado. Amanda deve ser isso: vazia.
- Beto, e o Carlos hein?! Nossa, meu, ele não ligou. Ele sempre liga! Já passou meia hora e nada. E o pior é que eu não sei se eu ligo ou se eu apareço no Bloco H procurando ele. Ai, sei não, aparecer assim, coisa de mina louca; vai que ele ta lá com aqueles imbecis da arquitetura? Ai, amigo, o que eu faço? Eu sei que ele se tocou, ele é muito perspicaz. E o pior é esse tratamento de choque! Antes de você chegar nós estávamos conversando sobre o fim de semana, sabe, sobre aquele churrasco que rolou na casa do Tio dele. Ele tava lá super feliz com os amigos e a família. Acho que foi algo importante pra gente, sabe, a mãe dele até veio falar pra mim que ele raramente trás namoradas pra família conhecer. Ela mesma só conhecia aquela vaca da ex-namorada que foi pra Londres e deixou ele sozinho. Quatro anos Beto, quatro anos! Como é que ela foi capaz de deixar o Carlos aqui, só. A sogrinha tava contando que foi por esse tempo que ele conheceu o melhor amigo. Ele tava lá também e, meu deus, é um gato! Você nem acreditaria no que...
Penso que eu faria a mesma coisa e não pensaria no que poderia ter acontecido caso eu não fosse. Estamos falando de Londres, uma cidade linda, com pessoa que falam somente Ingles. Definitivamente, essa cidade é muito pequena pra mim, aqui não tem nada que me sustente, emocionalmente, artisticamente e financeiramente falando. Detesto essas pessoas, detesto esse lugar. Acho que essa ex-namorada do Carlos fez certo em ir e buscar outras aventuras. Acho que a Alice apenas não entende. Alice, Alice.
- Então, foi isso, a mãe dele me contou tudo sobre ele e esse namorinho idiota com aquela patricinha com quem ele estudou no tempo da escola. Desde então eu tenho tentado fazer ele falar sobre esse relacionamento com ela, mas, sabe, sem nunca revelar que eu sei de nada. Até mesmo porque eu realmente não sei de nada; tecnicamente, ele nunca me falou dos relacionamentos que ele teve antes de mim – ele nunca fala, é reservado, calmo, extremamente controlado. Mas quer saber, ele é um palerma e diz que não gosta muito de falar sobre as coisas e tal, mas eu sei que ele não fala mesmo porque ainda deve doer bastante.
Alice calou-se e imediatamente pôs as mãos na cabeça, pondo-se a segurar o belo cabelo com uma força incrível. O silencio vindo da ausência de suas palavras me exigia manifestar algo gentil. Alice, finalmente destruindo a harmonia sonora causada pelas folhas da árvore balançando, propôs sairmos do lugar e comermos. Andamos até o restaurante self-service que havia do outro lado da rua, perto da banca de revistas.
- Vamos sentar ali na parede, porque eu gosto um pouco dessa parte escura desse lugar ok? Ai, Beto, eu não sei, eu não sei, eu to sendo uma chata contigo né? Você ai deve ta escutando tudo e pensando como eu sou insegura. Eu sou mesmo, Beto, você sabe, sempre fui assim. As pessoas me chamam de linda e tal, enfatizam que os meus olhos são lindos e os homens realmente fazem muitas coisas pra poder ficar comigo. Mas o Carlos foi tão diferente; sei lá, ele é tímido de verdade, não foi só fingimento. Ele é reservado, cavalheiro, lindo e sabe me proporcionar esses momentos em que eu me sinto a mulher mais feliz do mundo. Não quero que acabe. Eu estou feliz após vários relacionamentos que acabaram da pior maneira possível, você sabe, Tales, Marcos, Robson, Eduardo, Adriano, todos esses e os que vieram antes deles também! Eu quero me focar na minha carreira, quero por pra frente os meus projetos, mas, agora mesmo, eu só to pensando no Carlos. Falando em Carlos, se lembra daquele melhor dele amigo que eu te falei? Ele é um gato, olhá lá, ta entrando agora de camisa social azul e calça branca, vou chamá-lo para almoçar com a gente, algum problema?
Foi então que, sem sequer eu perceber, Alice acenava para o cara que eu estava comigo mais cedo na parada de ônibus.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Parte 2 - O vinho no tapete felpudo sustenta um homem bebado

Era noite e ele já havia aberto uma segunda garrafa de vinho. Celebrava a sua nova resolução que conferia não contar jamais nenhum de seus problemas aos amigos – decisão tomada baseada na exclusiva falta de interesse dos seus amigos pelos problemas. Ai amigo, relaxa, tudo vai ficar bem, você vai encontrar uma pessoa e vai ser muito feliz. Um brinde a quem é imbecil o suficiente para acreditar que eu, logo eu, vou ter tal destino. Não espero ser tratado como pessimista ou como louco, pois realmente prefiro o termo “sensível demais às coisas”. Ora, é um fato concreto: houvera passado metade de sua vida a procura de tal pessoa, de tal felicidade proveniente de relacionamentos saudáveis e a encontrara somente pessoas repugnantes de atos perversos.
Celebrava a felicidade, inclusive nos momentos mais tristes, ainda que como uma máscara tão adequada aos momentos que houvera deixado suas marcas na face úmida. Todas essas linhas, todo esse aspecto de vida, um dia sumiriam e elem deixaria a sua marca no mundo.
Era alguém, que, sobretudo, merecia encontrar o que ele procurava. Mais do que merecer, ele precisava disso para continuar vivendo, pois não aceitaria viver sequer mais um ano sentindo inveja das situações que todos tiveram, exceto ele. Contava nos poucos dedos as pessoas que havia beijado ou com quem havia feito sexo – repetia a si, logo após os números baixos, que isso tudo era resultado de um trabalho árduo de preservação e certezas que ele tão humildemente julgava ter sobre as coisas. Gostava de pensar sobre si como uma pessoa ciente das coisas, mesmo sem não tê-las vivido pessoalmente.
Engana-se quem pensa que falamos de um homem qualquer; era um sujeito distinto e suficientemente confiante de si – até alguém que importasse o dizer justamente o contrário. Acreditava, principalmente, que pessoas que ele admirava tinham um poder sobre ele – algo que ele julgava como magia, mas que na verdade, era apenas a gana por um artifício mágico que não se encontrava em qualquer um.
- Qual é esse problema da humanidade que não me reconhece como um homem digno de carinho? O que há dentro dessas cabeças que eu tanto admiro que insistem em me ver como algo indigno de um segundo olhar? Eu sou excelente! Eu sou um excelente profissional, bonito e charmoso, que posso fornecer uma vida confortável a qualquer pessoa que deseje unir-se à minha vida! E por que todo mundo insiste em me abandonar, ou, por vezes, me trocar por uma versão mais magra, ou mais simples?
Já estava trôpego, discursando por sobre o sofá, apontando a taça de vinho tinto para um quadro que exibia a pintura de uma mulher perdida na selva. O ventilador de teto estava ligado, as luzes estavam acesas e o som estava ligado – enfim, as coisas funcionavam. Ele pensava exatamente nisso: como era engraçado tudo, exceto ele, funcionar. Rapidamente, tropeçando pelas almofadas e derrubando no tapete o resto de vinho que estava na garrafa, ele desligou o som e já com a mão estendida, voou em direção ao interruptor, arrematando em um só golpe os três botões da parede – dois das luzes e o do meio, que dizia respeito apenas ao ventilador.
Pronto, escuridão e silêncio o levariam, assim que possível, ao sono. Ele dormiria se sentindo frustrado, resmungando palavras inaudíveis, ainda vestindo a roupa que estava usando no trabalho. Deitaria no chão, agarraria uma almofada e choraria. Logo em seguida ele poria suas mãos no tapete felpudo e sentiria o conforto das suas coisas. No meio da noite, viraria seu corpo na direção contrária da luz da lua que entrava pela janela e agarraria a primeira almofada para ser a sua companheira de noite, para poder dar carinho e para não se sentir tão só. Então dormiria humilhado por si.
Despertou em seguida, ainda lembrando do último pensamento que havia tido – enquanto abria seus olhos, procurava reconstruir a sequencia lógica dos fatos que o fizera ter adormecido daquele jeito, naqueles trajes com aquela bagunça. Isso duraria mais do que o necessário, mas pela mesma janela em que a luz da lua entrava na noite passada, a luz do sol, quente, o obrigava a se mexer, a sentir calor e a voltar a viver.
Seria mais fácil hoje; ele viveria o seu dia recordando os fatos de ontem e tentando incorporar mais algum detalhe que o sustentasse dentro de si mesmo. Logo seria uma nova hora do dia e ele comeria torradas com geléia após ter tomado um banho longo e revigorante. Depois, observaria a bagunça e até tentaria começar a limpar algo, mas antes olharia o grande relógio de parede na sala e constataria estar mais atrasado que o usual. Isso o faria correr para o quarto e vestir a primeira roupa que ele encontrasse no armário bagunçado – uma calça preta, uma blusa social azul e um sapato branco. Poria a bolsa marrom e verde e no caminho para a Universidade espalharia um pouco de perfume em si.
Estaria pronto, então, para mais um dia.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Parte 1 - O feixe de luz na copa da árvore

Eu vi esse garoto encostado em uma árvore na parada de ônibus escutando a sua música. Ele fechava os olhos e tentava expressar exatamente o sentimento que ele sentia ao ouvir a música. Nós, do lado de fora, apenas víamos; alguns riam, outros apenas olhavam – eu admirava. A situação era, realmente, engraçada; ele parecia estar preso em um clipe musical.
De repente, ele parou um pouco e olhou para seu ônibus. Foi então quando eu pude perceber o quão bonito aquele garoto era. Ele usava uma camisa social azul que, por algum motivo, implorava ser abraçada. Sua bolsa verde e marrom segurava um chaveiro com a bandeira do Canadá. Ele usava um sapato branco que estava muito sujo e uma calça completamente preta.
Ao subir no ônibus, ele escolheu um dos cantos e lá permaneceu até o final da viagem aonde desceu comigo, na parada mais próxima à Universidade. Foi somente quando ele passou apressado por mim, olhando para ambos os lados da rua, que eu pude sentir o seu cheiro. Imediatamente, fui obrigado a puxar todo o ar que havia ao meu redor, e viajar pelos lugares mais confortáveis da minha imaginação, e só então, de repente, quando já não tinha mais ar algum para inspirar, eu pude voltar me concentrar nos barulhos do carro e atravessar a rua.
De alguma distância eu o observava andar, entrando pelo pátio da Universidade, passando pelas plantas. Não pude ter certeza, nem jamais poderei, mas eu continuo pensando que ele sorria para as flores enquanto cruzava aquele pátio. Era a minha parte favorita da Universidade, pois nela se encontravam várias flores coloridas; era a minha maneira particular de voltar a sentir a natureza que não havia mais em lugar algum.
Ele continuou andando na minha frente e, ocasionalmente, ele virava a cabeça discretamente, como quem olha pra trás e rapidamente se arrepende de tê-lo feito. Não estava pensando direito, mas talvez fosse possível que ele tenha notado que eu o seguia. Então, por esse único motivo, eu parei um pouco e fiquei observando ele andar ainda mais, até dobrar em um desses prédios e sumir da minha vista.
Pude, então, voltar em paz para o meu próprio lugar e pensar um pouco sobre as coisas que haviam acontecido. Estava um pouco confuso pelo efeito penetrante que aquela pessoa tinha sobre mim. Fui pensando aleatoriamente, de bloco em bloco, esperando passar os 15 primeiros minutos de aula, pensando em quem era aquele rapaz. Andei por fontes, plantas, estatuas e aglomerados de outros alunos.
Avistei Carlos, da Arquitetura, conversando com Alice, sua namorada, perto da árvore que fazia a maior sombra por aquele lugar. Alice parecia um pouco nervosa; não podia dizer nada de Carlos, apenas que ele estava usando uma camisa verde muito interessante. Andei em direção ao casal, ainda sem saber o motivo pelo qual eu deveria me aproximar dos dois. Foi somente quando estava bem perto que pude nota que Alice de repente olhou em minha direção e mudou sua expressão drasticamente, de modo que Carlos pudesse se virar e ver que alguém chegava. É claro que algo estava errado.
- Roberto, cara, quanto tempo!
- Bom dia – digo eu, sorrindo timidamente, segurando com muita força as duas alças da minha mochila pesada.
Roberto sorri de volta e Alice fala alguma coisa sobre alguma coisa que não me interessava, então finjo que escuto e olho para os feixes de luz que saiam da copa da árvore. Era realmente uma árvore muito grande. Ao notar que Alice terminara seu discurso, digo algo do tipo, “será que a gente poderia se encontrar pra almoçar?”. O casal tenta falar algo com dificuldade, se entreolham e, então, Roberto diz que está atrasado para a sua aula e parte, fugindo daquilo tudo.
- Você viu, Beto? Ele ta com ódio de mim por causa daquele lance lá do concurso.
- Ele tava? Não notei nada não – minto. Ele é sempre tão simpático, ainda acho que ele é o melhor namorado que você arrumou.
- Ele ta, eu sei que ele ta, ele não me engana, eu conheço o Carlos. Tu ta indo pra onde?
- Eu tenho que ir praquela aula ridícula do Carneiro.
Alice olha no relógio e alerta efusivamente que já passam 15 minutos após o início da aula. Mesmo não estudando com os mesmos professores, ela sabe que o Carneiro é conhecido por ser um daqueles professores que cobram demais dos alunos e que detesta quando os alunos não são exemplares.
- Eu sei – sorrio agradecido, deixando transparecer que, na verdade, a intenção é realmente irritá-lo.
- Toma cuidado Beto, ele pode...
- Eu sei, ele pode tudo, porque ele é o Carneiro, e está aqui desde sempre, e conhece muitas pessoas capazes de transformar minha vida em um verdadeiro inferno nessa Universidade. Eu sei, eu sei, eu estou ciente de tudo isso.
Alice ri um pouco e enquanto andamos em direção aos nossos respectivos blocos, ela continua falando sobre a certeza absoluta que ela já tem sobre o Carlos está com raiva dela, sobre o lance do seu fim de semana, sobre a sua indecisão de escolher um desenho para a sua nova tatuagem e finalmente, sobre como ela detesta essas meninas frescas que fazem parte da sua turma de Estilismo.
- Uma menina apareceu ontem com uma bolsa de 450 reais – 450 reais! – e eu não acreditei no absurdo que é uma bolsa daquelas. Com certeza, era linda. Com certeza, ela tem dinheiro pra gastar... mas parece tão errado. Ai meu deus, são 08:00! Beto, to super atrasada, a gente almoça, né? Me liga as 11:15, ok? Valeu por sempre me escutar, você salvou o meu dia, tchaaaaaaaau.
Alice deu meia volta, correndo e desviando de vários bancos e pessoas. Antes de dobrar na primeira entrada, parou um pouco, olhou pra mim e acenou novamente com a mão, erguendo o mais alto possível. Logo em seguida mandou um beijo e desapareceu.
Permaneci parado, olhando para o lugar em que Alice houvera a pouco me entregado seu beijo. Fechei meus olhos um pouco. Eu ainda estava um pouco confuso com aquele cheiro; por algum motivo parecia que aquele mesmo cheiro já fora importante para mim em algum momento. Eu ainda estava segurando a alça da minha bolsa firmemente, quando eu abri os olhos. Num ato automático, soltei uma das mãos e deixei um dos olhos observar o relógio. Estava um pouco mais tarde do que eu imaginava.
Dei meia volta em direção àquela árvore que nós estávamos há poucos instantes e me reclinei sobre seu tronco. Fui deslizando lenta e dolorosamente em direção à grama fria do chão. Eu havia fracassado; no final, eu já sábia. Não adiantava mais chegar a aula, pois eu já estava atrasado para estar atrasado. Ainda havia vários minutos antes da aula do segundo período começar. Por isso, retirei da minha bolsa um livro e comecei a lê-lo.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Comemorando 3 anos sem vinho

Estou na segunda taça de vinho. Uma taça real, que custou exatamente seu valor. Foi comprada em um final de tarde em um mercado qualquer. Foi comprada exatamente para esse momento em que o gosto do vinho se perpetuava nos pontos da língua. Eu como sempre, pensando de mais sobre o significado do beijo e do vinho. Bebo só e estou refletindo sobre os outros significados e projeções. Confesso que estou orgulhoso por algo que eu nem mesmo reconheço; escondo de todos, mas embora não tenha admitido ainda, sinto uma grande falta de uma outra pessoa em mim. Há quem diga que é preciso ser feliz sozinho – eu inclusive. Não sei se acredito nisso ainda. Sei apenas que sou feliz porque faço o que quero sempre que quero e não me limito a ser coadjuvante na minha vida. Sinto falta do mocinho sem nem mesmo conhecê-lo, sem ao menos saber se um dia ele vai existir. Um brinde a ele, esse rapaz incrivel que vai me enfeitiçar e me enlouquecer. De antemão lhe digo que estou com raiva por você não ter feito tanto esforço pra me encontrar... eu lhe procurei, ok? Eu fiz as coisas mais estupidas pensando que eu pudesse lhe encontrar nos lugares mais inusitados, nas atitudes mais mesquinhas, perto de conhecidos tão desconhecidos. Eu tentei, demais, entrar em contato contigo; lhe procurei em cada outro rapaz que me entristeceu. Nunca julgue o meu amor, nunca me ponha em cheque e nunca ache que eu não lhe quis: estou lhe dando provas de amor antes mesmo de lhe conhecer; a maior delas foi a segunda taça, que jaz vazia, esperando você.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Coxinhas e Private Practice

É que no momento eu tenho tantas coisas para contar e nenhuma pessoa sequer pra ouvir. Então, o meu dia começou acumulado dessas pequenas coisas e enquanto eu tomava meu banho eu compreendi que ainda não havia tirado a barba esse ano; confesso que o pensamento me revelou uma surpresa positiva, pois afinal de contas, significa uma vitória. O mais estranho não foi exatamente o fato em sim, mas como ele chegou a minha cabeça. Ao sentir a água caindo sobre minha cabeça e levando consigo o mal de ontem, eu senti o peso da água acumulando na minha face; foi quando notei que havia muito cabelo. Inevitavelmente, acenei para mim mesmo, como um cavalheiro faria, e disse: pois bem, eu sou um homem vaidoso, tenho o hábito de lavar minha barba com orgulho... não há, pois, nada mais que me impeça de sustentar esse homem. Então eu lembrei que, por acaso, eu tenho me visto no espelho e notado o peso que a barba dá a minha aparência.
Mas não foi tão somente isso que se acumulou às outras coisas que jamais alguém vai ouvir de mim: sou gordinho. O problema é esse sufixo “inho” que dá uma beleza irreal as coisas. Isso incomoda, pois ontem mesmo eu estava avaliando as fotos de uma dessas pessoas que aparecem na internet; você os vê sem falhas corporais e pensa que a vida seria mais fácil caso fossemos sem falhas. Não seria, tenho certeza. A vida não mudaria por causa de um corpo bonito. Honestamente, mudaria muita coisa, mas a dúvida ainda seria a mesma, apenas vista do outro lado: será que alguém me amaria se eu não tivesse tão belo corpo como esse? Logo, logo, voltaríamos a pensar no esforço e nas milhares de coisas gostosas que não comemos para ostentar esse visual.
Ainda senti uma vontade de comer uma coxinha suculenta e de não me sentir arrependido. Foi tão somente quando eu percebi que eu já era um outro tipo de homem – aquele, independente e solitário, que acredita em coisas tolas. Caralho, como eu sou careta. Foi ontem mesmo quando eu pensei nisso; e é verdade! As pessoas, me incluo nesse grupo, são idiotas ao ponto de acreditar nas coisas que elas querem. Isso me irrita ao ponto de eu desacreditar em mim e me sentir falho, novamente, por outro ângulo. Lembro das pessoas, e de outras pessoas, e de mais algumas, sendo completos idiotas, dando ordens e exigindo coisas sem sequer a minha permissão para tal. É algo pensável, penso eu.
Por fim eu me senti incluído em um seriado. Sabe, os olhos pairam sobre aquela personagem e você acena novamente: é, essa daí é algo mais tipo eu. Por isso você começa a querer conhecê-la e imaginar-se na sua vida, sendo uma psiquiatra de cabelos encaracoladas, portadora de olhos verdes tonificados e com um homem que é tão gordo com você, apenas não usa a barba, completamente apaixonado por ela. Ai você se sente trabalhando naquele ambiente, com aquela mulher de cabelos ruivos que é uma pessoa relativamente nova na sua vida. Você pensa: nossa, que mulher! Difícil ver alguém tão mulher quanto ela. Ela vai a jogos de tênis e tem uma bolsa preta de couro aonde ela guarda seus segredos. Ela é linda e todos a olham com aquele olhar denunciando que ela é a principal. A parte mais interessante é que ela tem essa fantasia com o cara que todos diziam ser a pessoa errada. Todos sabem disso, inclusive eles, mas tem essa coisa inexplicável; ela é linda, como você jamais seria, e ele tem aquele corpo, que você queria ter, e jamais vai ter, por causa das coxinhas e dos arrependimentos. Eles vão acabar juntos; e você, provavelmente, dependendo dos humores, também terá seu par perfeito. Jamais será ruiva e feminina, ou terá o cara do corpo perfeito, que tanto você desejou.
Que venham as coxinhas, então;

domingo, 25 de setembro de 2011

Inverno

Em alguns poucos segundos, antes do vento gelado acertar-lhe com um tapa a sua cara cheia de maldade ele irá refletir sobre o poder da inveja e constatar que é incapaz de ser superior. Ele verá a quantidade de erros que cometeu e como foi incapaz de, mesmo podendo prever exatamente o resultado, não mudar uma única palavra do seu discurso radical. Em poucos segundos o vento chegará e ele dará boas vindas a dor de saber que a culpa foi exclusivamente sua. Com orgulho sorrirá: manteve-se em si por todo o percurso; e se o resultado for a dor e a solidão, que ela venha, bem vinda, com o vento, que já lhe rasga em dois.

sábado, 13 de agosto de 2011

Água gelada pra lua maldita

Talvez fosse plausível dizer que ele estava levando numa boa. Acordou com aquele gosto de ontem na boca, rapidamente levantou, tomou seu banho e abandonou o seu quarto, deixando as roupas jogadas no chão se misturarem com resto de comidas em pratos que se multiplicavam pelos objetos do seu quarto. Antes de trancar a porta do seu 301, no entanto, observou de relance a posição do caos e confirmou: de fato, funcionava.
O resto do dia correu agradavelmente. As pessoas o cumprimentaram cordialmente, e até houve um episodio de abraço espontâneo quando ouviu a voz daquela colega que ele sentia falta. Era o primeiro dia, pela quinta vez pela semana: ser professor tem disso, as vezes você vive a mesma alegria ou tristeza várias vezes.
Ele sentou-se por alguns minutos e logo em seguida alguém apareceu – foi o necessário para conversar sobre pequenos detalhes, pequenas viagens, pequenas resoluções, pequenas mudanças, pequenos amores. Tudo foi dito categoricamente, sem emoções exaltadas, sem o mínimo deleite sequer: mecânico. O grande ponteiro do relógio fazia a volta final, demandando que todos, na mais pura desordem, saíssem. Ninguém pensava na volta, apenas no começo: todos deveriam ir e voltar pelo menos cinco vezes em momento diferente naquele dia. Assim como de costume, seria possível ver as mais diferenciadas expressões enquanto se olhava para o relógio – algumas delas performadas pela mesma pessoa. A cada Tic, um Tac. Regra.
É noite, começo de noite, ele volta ao seu corpo com uma sacola de supermercado na mão, esperando o elevador, olhando com cara de mistério pros números que se movem. Era o terceiro andar e a escada estava ao lado; foi. Antes de abrir a porta pode observar as unhas sujas segurando os dedos podres ornados com o chaveiro favorito: estatua da liberdade. Ele tinha poucas chaves, preferia assim, manter tudo simples. Antes de abrir a porta, observou os números 301. Fantásticos. Era aqui, né? Aqui ele morava, e tudo o que ele tinha feito anteriormente se resumia aquele lugar imundo, provavelmente habitado por baratas que ele jamais havia visto, apenas escutados.
Olhando pro três ele pode notar que o lance das baratas era um barato. Ele era só, e tinha pena de não poder mudar sua condição facilmente. Há de se notar que era possível ser algo menos só, mas isso significaria exigir forças de um ser que ele não concebia ser, ainda que significasse a cura para o mal que o assolava. Nada valeria a pena e no final, sempre haverão as baratas.
Com a conclusão do pensamento, uma vez que havia se fechado o ciclo, ele finalmente girou rapidamente a chave na fechadura; fez questão absoluta de girar duas vezes seguidas, fazendo todo o barulho necessário, anunciando a sua entrada no seu reino – era como se ele esperasse ser ovacionado.
Não foi.
Rebolou a bolsa cheia de trabalho no cabide irregular ao no sofá perto da porta. Sentia falta da sua cachorrinha levada; por isso, quem entrava podia ver uma fotografia velha da Eva, aquele pedaço de furacão que vibrava emocionada quando ele chegava em casa. A foto ficava em cima de um sofá preto que pertencia a sua família. Quando não havia mais espaço pro sofá de gerações e o seu destino havia sido escrito, ele foi doado para o novo apartamento, apenas como lembrete que o sofá continuaria existindo, e embora não pudesse parecer tão confortável a primeira vista, surpreendia a todos
Deitou-se por um tempo e refletiu: era sábado, que merda. “não iria rolar reciprocidade” concluiu. Tentava finalizar os pensamentos para pode concluir as ações – e então refletiu se isso era erro ou acerto. Dirigiu-se a geladeira e bebeu um belo copo de água enquanto olhava pra lua cheia através da janela, maldita, no céu. E ria feliz, olhando para aquilo, com olhar de desdém. “Sua maldita, nunca vou te perdoar”.
E de repente, com essa confissão, ele realmente havia chegado em casa. Era lar, por mais inconveniente que pareça, é a verdade. Lar... Bagunçado, lar.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Doritos, Fanta uva e Diamante Negro

Após desligar o telefone permaneci deitado por um tempo. Ainda estava usando a calça jeans e a blusa simples com aquela estampa de Nova Iorque que eu tanto gostava. Aquelas duas juntas ficavam tão bem que até parecia um pecado tirá-las, ainda que elas não tivessem utilidade alguma. Olhando para nuvens eu imaginava o momento de tirá-las; completamente arruinado pelo algo que jamais aconteceu, pelas pessoas que jamais nos veriam com aquelas roupas. O calor que os sapatos faziam aos pés até pedia que pelo menos eu os tirasse, mas estava tão determinado a sair vestindo aquela fantasia de homem feliz, que mesmo assim, abatido, desci as escadas lentamente e, ao chegar à cozinha, escolhi dez uvas verdes que estavam repousando no seu sonho de vinho. Comi-as todas, devagar, sentindo o néctar, aproveitando ao máximo o seu gosto finito. Eu as abria ao meio e retirava as sementes com a língua, logo em seguida cuspindo em um cesto de lixo.
Eu sentia raiva. Não era apenas a roupa; também tinha o fato de eu ter recolhido milhões de moedas por todos os cantos da casa e não poder gasta-las. Eu tinha reunido, com muito orgulho, dez reais. Isso valeria um real pra onde eu pretendia ir, mas mesmo assim, valia algo, valia usar a minha roupa, valia sorrir. E eu não ia. Então estava eu sentado na frente do computador, pensando em uma reviravolta possível, uma alegria substancial que pude-se me mover imediatamente para a rua, correndo de alegria, pipocando de idéias e ansioso como nunca fico. Ao invés disso eu só me sentia um derrotado. Eu já tinha soluções pra usar outras roupas em outras ocasiões ainda mais difíceis, que exigiam ainda mais da minha superação em nome de alguém. E tudo o que eu me ouvia dizer era que “hoje não vai dar, hoje realmente não vai dar...”. Tristes reticências que me derrubavam ainda mais. Eu quero lutar, eu quero fazer as coisas acontecerem.
Então eu paro agora pra pensar o que aconteceria caso eu tomasse quaisquer decisões. Tenho dois finais possíveis. Prefiro imaginar o que não aconteceu, porque de qualquer forma isso sustentaria a mim e aos meus sonhos. Vou falar do momento cansáveis que desperdicei na tela do computador e de toda a caixa de chocolates que eu comi enquanto via os meus seriados no computador. Me sentiria bem, por que isso tem sido minha morfina por toda a vida.
Foda-se a anestesia, eu quero viver, porra!
(A partir desse momento, recomendo a leitura munida de Fanta Uva, Doritos e Diamante Negro)
Agora eu tomo espaço pra continuar aonde eu parei. Minha história continua no momento que eu decido inventar um motivo maior. Ele eventualmente apareceria, de qualquer forma. Eu simplesmente me afirmei e disse: eu vou, e não quero saber se você vai, eu vou mesmo assim, porque eu já estive pronto muitas vezes para desistir mais uma vez. Eu vou, e hoje vai dar.
Desliguei o monitor e fui andando. Enquanto caminhava fui maturando razões, desculpas, respostas, contra-argumentos, réplicas, frases de efeito e possíveis cenários. A verdade é que eu nunca fui um homem que fazia da vida uma surpresa; no momento eu sou esse cara que eu sempre quis ser, e pra ser bem honesto, eu me sinto tão bem sendo ele que de agora em diante eu só sei sê-lo.
Luzes, luzes, ônibus, ruas, ruas, avenidas, ruas, esquinas, trânsito, lugares, idéias, carros, mais carros, lugares, idéias, contra-argumentos, medo, respostas, possíveis cenários, respostas e então eu desço do ônibus e caminho de cabeça erguida, satisfeito por ter seguido uma convicção boba que mais tarde faria toda a diferença pra mim.
Eu o encontro e ele sorri em retorno, cheiroso, tão delicado e faminto. Me faz sorri e pensar em felicidade de um jeito menos denso, mais próximo e cada vez mais presente. Lembro que semana passada tudo era um sonho, e ainda hoje eu acordei pensando que tudo tinha acabado. Não, não tinha, não hoje, provavelmente amanhã, mas não hoje.
Conversamos em dois bancos. Enquanto ele sorria, eu ouvia um piano ao longe tocando notas harmônicas. E era aquele ritmo que me balançava e inquietava meus tiques nervosos – sempre vou precisar deles, mas hoje não, jamais no dia de hoje. Onde estava o silêncio, aquele pobre coitado? Extinto. E eu feliz, segurando com todas as minhas forças o grito de vitória. Preciso desse drama, preciso dessa crônica, preciso que todos, principalmente eu, saibam o quão feliz eu estive estando enquanto escrevia a crônica mais fraca de toda a minha carreira. Preciso que os críticos digam que não há nada o que dizer sobre minha postura infantil perante a Literatura, preciso que pronunciem ofensas quentes e dolorosas e que cuspam todos os erros que eu cometi conforme o texto crescia. Preciso que as pessoas que leram os dois parágrafos iniciais cheguem a esse ponto e concordem unânimes com a perda de tempo. E principalmente, preciso que quem chegou a essa ultima frase me homenageie fechando os olhos e sorrindo algo que precise ser sorrido.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O sol da tampa do suco de laranja

Eu tinha essa mania de nunca escrever diretamente sobre os meus sentimentos em primeira pessoa. Acho que sempre fui a pessoa que nunca esteve triste para o mundo, apenas dentro de si. Eu pergunto, de repente, por que agora eu sou o narrador? Por que estou me dando tenta evidência? Isso não é meu tipo de Literatura, e realmente tenho inveja daquelas crônicas que acertam como flecha a maçã em cima da cabeça do amado. A verdade é que eu queria definir o amor de tantas maneiras que jamais parei pra pensar que na verdade é o amor que me define. Ontem mesmo eu estava parado olhando para um ponto branco da parede, decidindo aonde eu ia colocar o sol da tampa do suco de laranja que apareceu recentemente. Disso pra conclusão de que eu estava feliz foi apenas um breve segundo, e logo em seguida eu comecei a sorrir pra mim mesmo. Eu sempre disse que o meu coração foi quebrado em mil pedaços, mas só agora descobri que essa cola maluca chamada amor além de juntar tudo o que já foi quebrado, pouco a pouco anestesia o peito. Eventualmente se a cola acabar, tudo volta com peso maior. Mas alguém, qualquer um que seja, me diga, será que alguém vai preferir um segundo sequer da dor extrema que é ficar sozinho quando se deseja dividir a alma em duas? Eu respondo nesse momento de anestesia que não. Nesse momento realmente não me importa saber qual o seu caso de amor mais conturbado, ou qual é o tamanho da sua dor. O amor cura tudo e se isso faz de mim a pessoa mais lamentável que você poderia conhecer um dia, eu sou feliz em dizer que eu realmente sou; e tendo em vista que capricorniano é realmente muito ousado no que diz respeito às palavras, eu já revido o possível argumento dizer que eu tenho pena de quem não consegue amar, pois eu realmente acho que vocês, e incluo o eu mesmo de algum tempo atrás, são todos uns vazios. Vão amar, porra!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Get outta my way

Agarrou o primeiro braço que suas mãos desesperadas encontraram. Antes mesmo de alguém responder ele disse sem pestanejar: preciso de seu conselho para um problema que está me deixando louco. Então, o estranho, que era calvo e parecia ter nenhuma experiência de vida, engoliu suas palavras cheias de ódio e em um tom brando perguntou sinceramente se importando qual era o problema.
E quando tentou abrir sua boca, gaguejou, parou um minuto e disse: desculpa, acho que não há mais problema.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A verdade é?

Em uma bela conversa abrimos as bocas um do outro e retiramos confissões cínicas; isso somente porque havíamos chegado a um grau de cinismo tão importante que ambos sentíamos o prazer delator pulsando nas veias. Mentiríamos cada vez mais e isso nos incomodaria cada vez menos. A verdade é que distorcíamos tudo com nossos pensamentos rápidos e estratégias e por causa disso nos fomos construindo uma codependencia fatal que ocasionalmente se viraria contra nós e destruiria qualquer dado de carinho que havíamos sentido um pelo outro; ainda que fingidos, esses dados foram ditos, e como a mentira é sempre nossa aliada, jamais haveria contra prova se nós não quiséssemos.
- Você nunca confiou em mim.
E era de fato uma premissa verdadeira; porém, dado as circunstancias era possível argumentar contra. Esse tipo de verdade infame - que jamais entra em cheque - os excitava, e de uma maneira destrutiva. Eles esperavam a destruição do outro, e isso poderia estar acontecendo agora, se qualquer um fosse relapso; Não eram.
- É verdade, eu poderia nunca ter confiado em você. Nunca saberemos.
Selaram com um beijo e transaram no tapete do chão, ao lado da cama.

domingo, 26 de junho de 2011

Eu sou Deus

Eu tive uma excelente idéia enquanto assistia um desses seriados. A idéia baseava-se em uma mulher de meia idade com os olhos verdes e belos cabelos curtos e ruivos. O que eu pensei? Eu sou Deus. Por quê? Até esse momento ela está nas minhas mãos e eu decido se ela morre ou não. Se ela é feliz ou se ela toma café. Eu sou Deus
Eram 22:30 e Ícaro Rabelo, cineasta independente, roteirista e fotografo, procurava dentre as milhões de idéias nulas uma boa opção para a trama que não levaria a lugar nenhum. Esse titulo, impactante, capturava a idéia geral da razão das consecutivas 22:30 do ultimo mês: a vida chata de uma pessoa chata que seria contada de uma maneira interessante. E esse objetivo seria alcançado quando uma pessoa chata fosse salvo de um dia chato por esse livro ou filme que se desenhava no momento
Ele era Deus. E ria um pouco grosseiramente da blasfêmia. Atraver-se-ia a repetir novamente? Sim, quantas vezes fossem necessárias, afinal das contas, o motivo de tudo sempre era a quebra. Ícaro revia alguns textos no seu computador enquanto esperava sua refeição chegar. Nesse momento, café algum faria efeito. Ele necessitava de boa comida, de um horário regular de exercícios, e de mais lanchonetes 24 horas. E naquela noite, era sábado, porque ele assim quis, a garota começava a chegar a lugar nenhum apenas tentando fazer o que todos nos já tentamos algum dia: bate-papo online.
A escolha no nick demorou alguns segundos. Ela olhava fixamente para aquelas letrinhas que somos obrigados a decifrar e que jamais acertamos de primeira quando estamos com pressa, com sono, ou velhos. Ela era um pouco velha, dizia-se, animando; ora, antes era melhor ser um pouco do que muito. Resolveu escolher Era venenosa; não se sentiu julgada como esperava. Ao contrario das suas expectativas, ela sentiu-se rejeitada, e então reentrou várias vezes na mesma sala até algum homem de nome suficientemente charmoso a corterjar-se.
Decidiu então desviar sua atenção e preparar-se um macarrão instantâneo de galinha caipira. Seu apartamento era bastante desorganizado, e tudo em nome da arte. Ela gostava a ilusão de pensar que cada algo diferente geraria uma mudança no fluxo continuo do tempo ou então quaisquer outras palavras diferentes e chamativas que impressionassem aparentemente positivamente um alguém sem mente. Mas as pessoas logo se cansavam e então ela dizia que era apenas descuidada.
E Deus perguntava, por que, diabos, não posso fazê-la importar-se mais um pouco com a organização?
Imediatamente a mulher ruiva da qual falávamos a pouco, ainda sem nome completo definido – e aqui entra um pequeno comentário do diretor: seu nome terá a letra J. então assim a chamemos enquanto isso ainda é um arquivo dentro do computador imaginário de um deus que habita um livro inexistente – começa a perguntar-se o que Deus reticências e os três minutos do macarrão acabaram.
Era simples e saboroso.
Durante os outros três minutos em que o macarrão instantaneamente pulava do prato para a sua barriga, Jennie ou Jennifer, escutava sirenes de policia. Sem desviar a sua atenção das pequenas curvas disformes que seu alimento desenhava no prato, Jennie ou Jennifer perdia a bela imagem azul e vermelha que se desenha na janela atrás do seu computador. Ela perdia a grande oportunidade de escrever o seu próximo possível livro, sem nome ainda definido.
Ícaro Rabelo pause e pensa que apenas um nome seria suficiente para um sucesso. Um sucesso precisa do nome pra se vangloriar. E então voltamos ao principio de Jennie ou Jennifer, que era se perder.
Enquanto havia algum resto de comida no prato, deixado de lado para a anotação de idéias importantes para a boa harmonia da casa, Jennie ou Jennifer pensava em coisas absurdamente impensáveis, como, por exemplo, porque ela havia deixado de lado a caixa de fósforos com três palitos jamais acessos e retirado uma nova caixa com novos cem amiguinhos para acender o fogo sagrado do fogão. A historia começa exatamente do mesmo jeito que termina, antes haviam três palitos, e antes deles mais três... e ela sempre os descartava, como se fossem palitos utilizados. Não o eram. Jennie ou Jennifer se arrependia amargamente de não ter tido a idéia que estava passando na sua cabeça enquanto o macarrão enrolado gelava no abandonamento provinientes do seu mais alto nível de subjetividade permitido pela sindica do prédio, Geralda, que era uma vibora inteligente: por que não criar uma família e por os 3 fosforos juntos sos outros três que estarão por vir?
E então ela reclamava que a comida estava fria e a jogava no lixo.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Primeiravera

Durante os grandes minutos dos seus dias teve os mais diversos lapsos de memória. Lembrou-se primeiro do belo sono que havia tido noite passada: dormira como um ser inocente, tendo folga dos demônios que o assolam durante a madrugada. Sentia-se exageradamente delicado, como uma flor rara que jamais havia pensado existir; qualquer movimento mais brusco faria aquele vento matinal o despetalar em quatro direções diferentes. O vento o levaria para todos os piores lugares do mundo e o reuniria completamente corrompido em uma lembrança de flor machucada. A partir daí recuperaria a sua beleza inicial, dessa vez transformada em outro tipo de beleza intrigante. Naquele dia ele seria aquela flor prestes a se dividir em quatro pétalas. Temeria as brisas inconstantes, mas as enfrentaria com bravura. Apalmou seus braços frágeis e sentiu-se unido em um ser que parece quebrar que merece morrer para encontrar o sentido que a vida o impunha. Depois de certo tempo, cansaria do adeus, e enfim estaria pronto para a jornada.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A jaqueta

Eu seguro os casacos, logo, talvez ele deva me conhecer apenas como “aquela garota simpática da recepção”. Na verdade eu sou a garota que secretamente cheira a sua roupa procurando descobrir mais detalhes sobre ele. Nunca senti o seu perfume, apenas o seu cheio. Antes de tirar aquela aquela jaqueta preta conseguia tocá-lo. Experimentava um pecado voluptuoso, daqueles em que os olhos se fecham, os ombros contraem e o corpo se move levemente para frente querendo se entregar em um abraço impossivel fora daquele devaneio. As mãos agiam rápidas, era apenas um toque inocente nos seus ombros seguido de um aceno cínico de quem deseja nada exceto ele. A cara sustentava um sorriso de culpa e prazer.
Logo levaria sua jaqueta a uma sala reservada e a vestiria. Tentava se imaginar dentro daquele corpo, dentro dele e através da jaqueta experimentava por alguns segundos o sabor de ser a pessoa pela qual se apaixonava. O cheiro incorporava-se dentro dela, fazendo-a agir de maneira inapropriada pra uma recepcionista. Valia a pena correr o risco, afinal, o desejo a excitava. Jamais teria coragem de sequer tentar alguma aproximação. Era feia e sem atrativos, porém, bem apanhada; uma daquelas que se conformaram e passam despercebidas.
A meia luz do depósito no qual se encontrava a ajudava a delirar. Estava escuro, e ela podia escutar vozes do lado de fora. Trancou a porta em um movimento bem rápido. Encostou-se de cosrtas para porta e deslisou. Tirou a calcinha por debaixo do vestido e chutou o seu salto alto para um canto qualquer. Se pôs imediatamente sentada no chão com suas pernas contraidas, como se protegessem uma ordem maior vinda de outro lugar. Tentava não ceder e, de olhos fechados, começou a acariciar o couro da jaqueta, sentindo toda a delicadeza que já havia ido embora.
Por algum motivo, notou que salivava bastante. O coração parecia não bater mais. Definitivamente, não se sentia ameaçada. Conseguia enxergar as prateleiras do lugar em que estava. Compreendeu que se tratava de um depósito. As informações se processavam muito lentamente, como se alguém irresistivel lhe dissesse baixinho no ouvido o que ela deveria saber. Virou sua cabeça para sua esquerda. Sem entender, seus olhos fecharam e imediatamente suas mãos retiraram os óculos vermelhos e soltaram o coque, fazendo uma cachoeira negra de fios ondulados dançarem sobre os seus ombros.
Sentia-se confortável naquela jaqueta. Pôde sentir cheiros e associá-los àquele que a governava. Sentia o choque do cheiro encontrar o seu corpo quente. Acima de todos os cheiros, sentia um cheiro de suor masculino que não lhe era podre. O cheiro natural do homem que lhje tinha sobre um poder, quase um feitiço. Seu corpo lutava contra seus desejos. Nesse momento, ela voltava a pensar sobre o que fazia, mas antes que fosse dada a ela a oportunidade de se sentir riducula e voltar a ser a patética recepcionista que era, novamente, suas mãos agiam, dessa vez puxando o vestido preto um pouco mais pra cima.
Sentiu uma das pernas tremer. Só lhe restava repousá-la e se render enquanto ainda havia uma perna segura apoiando sua loucura. As mãos trabalhavam sozinha e ainda que ela determinasse a intesidade ou a rapidez do movimento que faziam em si, ela jamais teria controle. Sua mente se rendia lentamente. Era como se ela mesma estivesse se desconectando da sua mente e entrando em outro corpo, um que lhe guiava do modo que ela mais precisava. Suas mãos já não lhe pertenciam. Eram outras mãos, mãos masculinas, que com rigidez a fazia desmaiar sobre si mesmo ao mesmo tempo que escorregava pela porta.
Começou a gemer baixo e de olhos fechados. Aquela mão a acariciava de uma maneira tão intima que ela jamais pôde entender como tanto conhecimento sobre ela foi transmitido. Ela desenhava aquele homem ao seu lado de modo que se ela virasse a cabeça um pouco mais para a sua esquerda ela conseguiria sentir um fino vio de vento soprado por ele. A certeza de que ele a possuía a excitava mais. Entre os gemidos e as mordidas de lábios, ela imaginava as várias facetas daquele homem de jaqueta preta que despedaçava pobres rosas como ela.
O calor aumentava conforme ele acelerava o movimento da sua mão. Qualquer ordem que ele a desse seria cumprida. A batalha entre ela e a realidade já havia sido perdida a muito tempo, então, ela aproveitava aquele homem surreal a atacando das maneiras mais diferentes, pouco a pouco realizando as suas fantasias e despetalando aquela pobre moça que se entregava a cada puxão de pétalas. Era a sua nirvana. Quando já não se importava mais com o que fosse feito das suas suaves pétalas, rapidamente gemeu bem alto, acordando de tudo.
Ajeitou-se parcialmente ainda de olhos fechados. Pôs seus óculos imediatamente como se aquilo fosse um indicio de que havia recuperado a lucidez. Afirmava-se vestindo cada peça de roupa, e assim, pouco a pouco ela recompunha. A mente se recuperava agressivamente da total ausência. Logo se lembraria das horas, do restaurante, das responsabilidade e, enfim, sentiria vergonha pelos seus atos.
Levantou-se apoiando uma das mãos na parede do cubiculo escuro. Procurou o seu salto exatamente no ponto em que pensava tê-lo jogado e os calçou com certa dificultada. Antes de abrir a porta tentou ajeitar seu cabelo e manter a aparência profissional da qual precisaria para voltar ao trabalho. Esperou alguns segundos para destrancar a porta e saiu orgulhosa daquilo que havia feito, pronta para encarar o final da noite.
Chegou ao seu posto e atendeu alguns clientes. Não demorou muito e ele voltava sorrindo - não mais que ela.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Sim, porque sim é assim.

Ele morria com a mesma velocidade necessária para fazer um relógio andar mais rápido. Suavizava a morte, era parte da vida, pensava. Não, não mesmo. Morrer é parte outra. Mas ele morria sem saber, morria e morria mesmo. Morria pelos dias que passaram e morria pelos dias que nem chegaram ainda. Como se chama o finado? Rubens. Quem é Rubens? Não lembro, faz tempo.
Andava com expressão cansada. Cansada mesmo, de tudo o que tinha vivido.Aquilo precisava morrer, mas não ele. Ele não morria, ele apenas vivia morrendo suas coisas. Seus pais, ainda andando, diziam que era coisa dele, que era normal e que era bom deixar. Deixar? Sim, deixar, era melhor deixar. Então ele deixava, sem saber se fazia bem ou mal. Mas não, ele não podia, ainda andava, cansava deixar.
Chegava aos lugares, pensando em como poder pensar sem ofender. Ainda andava, mas pensava mais do que andava. Como resolver o que sempre foi deixado? Certamente não deixando. Deixar não pode, pois nunca resolveu. O que pode é não pensar, e sim resolver. E fazer o que? Ainda andava, pensava e resolvia, sem nenhuma conclusão.
Uma mão o encosta:
- Quem?
- Oi, as horas, por favor?
- Não uso relógios, porque a pergunta?
- Achei que era a hora de mudar, não seria a hora de mudar?
- Não sei se era ou se é. Eu não sei se a hora chega ou se passa, mas eu sei que ela existe. Já mudou algo hoje?
- Pra onde você anda?
- Minha casa. Responda, pra onde a gente muda?
- Não sei, achei que você soubesse.
Agora ele pensava dois pontos reticência. Eu sei, eu deixei, eu mudei, mas não mudei tudo, eu mudei o que eu não quis mudar. Eu devia mudar o que eu não consigo. Mas isso é traição, isso é deixar e deixar é morrer. Acomodar é viver com morte um dia inteiro e dormir ao seu lado. Dormir é morrer ou acordar?
Anda, anda e anda. As pessoas, quem, as pessoas? Sim, elas andam, mas não pensam. Penso que não pensam porque nenhuma delas parece morrer, só parecem andar. Pra onde? Pra casa, eu acho. Mas não sei, acho que não sei. Quem sabe já morreu. Pensou demais, é crime, e você morre. Sim, você morre. Quem pensa morre. E quem não pensa? Não sei, acho que não sei.
Parou, chegou. Abriu sua porta. Colocou os livros na mesa. Tirou os sapatos. Sentou no sofá. Fechou os olhos. Adormeceu, mas não morreu – na verdade, adormeceu e acordou. Voltou a andar. Chegou aonde tinha que estar. Cumprimentou, beijou, abraçou, trabalhou e se irritou. Voltou a andar, voltou a chegar, voltou a dormir.
Passou o tempo, pensou no tempo, morreu no tempo.
Mas sempre acorda, sempre volta. Sempre há uma nova chance de morrer, porque morrer é sublime ao ponto de ninguém saber o que é morrer. Sabe-se que morre porque ninguém jamais volta a viver. Voltar a viver é pecado, e isso não pode ficar deixando. Tem mesmo que ajeitar. Morreu, ta morto. Não se volta pra não confundir ninguém. Fantasma de jeito nenhum, é tudo morto que quer contar o segredo da morte pra quem nem pensa em morrer. Não se pensa em morrer, se pensa enquanto anda, se pensa enquanto se pensa, se pensa enquanto se vive. Morre-se quando para de pensar. Isso é morte.
Começou a escrever linhas, a pintar tintas e gravar vozes em pequenas fitas cassetes. Separou uma bermuda, uma blusa, uma escova de dentes, um pedaço do cabelo e os bens que mais amava e os guardou em um baú, no fundo do mar. Nada molhava e não se sabe porque. Deixaria esse pensamento como herança para outra pessoa que consiga pensar no por que das coisas.Pensava por hora nele, no porque dele ter feito um baú. Não era pirata, baú quem tem é eles que sabiam esconder as coisas. Eu não. Eu joguei ai no mar, porque de qualquer forma, eu iria morrer se fosse achar aquelas coisas que não molhavam nunca.
Guardou a lembrança, pelo menos como lembrança de um dia ter feito algo insano. Os anos passaram se e ele voltou a voltar a fazer as coisas. Pensava em coisas mais diferentes, não sobre andar, não sobre morrer. Sobre as centopéias, sobre as luzes e sobre a eletricidade. Pesar em eletricidade era diferente, porque nunca era possível saber aonde ela se escondia. É rápida, eu sei, mas ela nem sempre é um choque. Ela é algo humano, do mal, que por hora não faz mal a ninguém. Mas ela é má, porque dói. Coisas que doem assim não podem ser boas. Pensou na televisão levando choques pra funcionar. Ninguém merece levar choques pra funcionar. Pode-se levar um choque apenas uma vez para saber que eletricidade é ruim.
Às escuras, na medida do possível, vivia. Vivia com medo, mas vivia. Escondia-se na casa escura, fugindo da eletricidade. Era sensível, bem se lembrava. Os pais falavam deixa, é assim esmo, fazer o que? Não se sabe, mas essa é a graça. Fazer o que? Fazer eletricidade é ruim, nem se pode pensar demais porque se morre. Se morre? Não sei; morre, eu sei - mas não sei “se morre”. Não pode-se pensar em pensar em morrer, porque, não-não-não, deus me livre. Não se culpa deus pela morte de ninguém. Se culpa deus por tudo, mas não se culpa em voz alta, porque deus castiga.
Dizem tanto de deus. Mas como se sabe de deus? Não se sabe nada de deus, porque Deus é escrito com letra maiúscula, tem de respeitar. Não tem que se repeitar, tem de se respeitar, porque um usar que demais é feio e dois respeitar é uma obrigação. Que? Sim, sem “que,” obrigação sim: deus é quem sabe morrer.

segunda-feira, 29 de março de 2010

29.03.09

29.03.2009
Por Ícaro Rabelo

Lembrou-se que era segunda-feira. Subiu aquelas escadas rolantes de cabeça baixa, o coração batendo rápido e com medo. Temeu principalmente olhar e nada ver. Então a cabeça ficou mais baixa, a medida que o coração explodia. Dentro, os pensamentos corriam feito loucos. Era a primeira vez que conscientemente prestes a cometer um grande erro. Não gostava de pensar em erros, pois eles sempre foram tão deliciosos que no final de tudo tinha medo de pensar que de certa forma ele mesmo era um viciado em erros. A cabeça pensava, ainda que baixa, no que falaria, em como falaria e se realmente falaria alguma coisa. Precisou de uma coragem que não tinha para erguer orgulhosamente sua cabeça confusa. Não era ele, via-se pela expressão leve. Poderia ser algum último suspiro de alguém que ele costumava ser quando ainda era inocente, ou até mesmo alguma outra personalidade que ele desconhecia. Via-se claramente pela expressão: não era ele. Aquela leveza no olhar e o riso inexplicavel que ele fazia quando precisava ser cruel.
Parou um pouco, como querendo procurar, sabendo que no fundo, era ele o alvo. Olhou ao redor, devagar, ainda temendo que ele realmente viesse. Desejando, de certa forma, que tudo que houve jamais tivesse acontecido. Devagar, foi checando cada pessoa, olhando atentamente para os olhos, que sempre eram os seus botes salva-vidas, tentando apenas encontrar algo conhecido, talvez um sentimento, talvez a própria perda que tanto o consumia. Viu apenas desconhecidos com olhos familiares. Olhou um pouco pra cima, um pouco pra baixo, e por fim deu adeus àquele lugar concluindo então que ele não viria. Esperar, jamais. A solução é voltar, e esquecer.
Ao virar o corpo, enfrentou o rosto familiar, encarando cada singular caracteristicas que o fazia ser tão especial. Era encantadoramente belo. Belo de um modo que os breves segundos em que ficou confrontando aqueles olhos cheios de tudo não forão capaz de suprir a necessidade que ele mesmo tinha de contemplar toda aquela beleza. Conseguia ver algo dentro deles que achava ser o coração, mas nunca teve absoluta certeza disso. Apenas via algo que era especialmente bonito. Talvez fosse esse o encanto que o empedia de ser cruel.
Surgiu então aquele sorriso diferente. E como se as coisas ficassem cada vez mais lenta, ele conseguiu prever o exato momento em que a voz sairia da boca. Sentiu o timbre preencher o peito; o mesmo timbre que sempre fora a representação fiel da sua felicidade durante aquele tempo. Abaixou um pouco sua cabeça, temendo algo que jamais conseguiria entender, e seu olhar encontrou aquela mão. Somente olhando ele conseguia sentir a leveza do toque, e então ele podia dizer para qualquer que era capaz de voar. Os outros detalhes do corpo foram pouco a pouco identificados durante o breve momento que encontrou os outros pedaços do corpo.
Sua cabeça subia levemente tentando encontrar os olhos. O grande encontro cruel que temeu acontecer, mas que agora já era inevitavel. Procurou as palavras que tanto havia ensaiado para esse momento, mas as perdeu em algum momento em que o olhava. Era sempre assim, as palavras sempre fugiam por mais presas que estivessem dentro da sua cabeça. Quem falava sempre era o coração, aquele bobo coração que insistia em tanta coisa e que acreditava fielmente em tudo. Ele apenas esquentava e batia forte, e isso já era o bastante para tudo acontecer descontroladamente. Respirou profundamente, e de dentro de sua bolsa, retirou uma caixa. Segurou aquele simples objeto como se estivesse amarrado a uma corda que o mantinha vivo. Estendeu a mão, ainda com pena de se despedir do ultimo sopro de vida que tinha tido nos ultimos tempos. Ofereceu, gentilmente e disse, como se fizesse as palavras terem o dobro do seu peso normal:
- Muito obrigado.
E então, sabia que aquilo era o final de tudo. Uma vez que a caixa fosse entregue, a corda que o permitia viver se romperia, e então, tudo teria um fim. Virou-se em direção escada rolante que o levaria embora daquele lugar. Não olhou pra traz, e talvez isso o tenha feito chorar uma lagrima jamais vista por ninguem e que por isso, jamais existiu. Era a crueldade que precisava ter para conseguir viver sozinho novamente. Sem ela seria o mesmo temor repetido, a incrivel montanha russa infinita que o nauseava sempre. Aquilo era o fim da melhor coisa que havia tido. Lembrou-se que ainda era segunda-feira. Ou era o fim do mundo?

domingo, 21 de março de 2010

Atrasos.

Havia um último gole de café dentro daquela mínima xícara. Era a segunda. A primeira foi rapidamente, eram apenas alguns minutos de atraso, então ele pediu algo para passar o tempo, enquanto sorria olhando o lado de fora daquela cidade nova. Pessoas passavam pela vitrine, apressadas, calmas, tristes, felizes. Nada se ouvia além do usual tilintar das xicaras nos seus pires. Vez por outra ainda ouvia-se alguem chamando o garçon, ou um tom de voz se elevando. Isso era o normal: pessoas que se encontram com amigos e amores dentro de uma aconchegante cafeteria em um dia cinza de inverno; o que ainda era compreensivel eram os atrasos.
Um último gole se fazia inevitavel. Café esfriando enquanto procurava uma desculpa, a última, para esperar mais outra xícara. Sem mais chances, todas haviam sido desperdiçadas. Seria patético perdoar quem nem sequer havia chegado a tempo para perdir perdão. E então, se chegasse, seria o transito a desculpa. Claro, o trânsito, sempre o trânsito ou a mãe doente. Não haveria mais chance. Era um fim que começaria a doer com aquele último gole frio.Olhou o relogio, como se ainda esperasse encontrar uma hora congelada, e tratou logo de abaixa-lo. Quando fora a última vez que olhava as horas?
As pessoas o olhavam. Não era como se ele fosse um animal diferente, ou travasse uma luta contra seu relógio ou aquela xicara. As pessoas simplesmente olhavam e sentiam a sua dor. Os tomadores de café sempre conseguiam entender qualquer coisa. Consguiam vê-lo olhando a vitrine, esperando encontrar alguém que poderia chegar de todas as direções, ou de qualquer forma enquanto as luzes acendiam lentamente. Não era noite, era apenas escuro. O amarelo chegava perto da sua face,beijando as bochechas e a boca, quase o expulsando daquela impossibilidade que era estar sozinho em um lugar cheio. Era um rapaz realmente muito bonito, principalmente quando a luz o alcançou completamente.
Encaixou um dos dedos na pequena asa da xícara e a levou rapidamente para os lábios. Todo o processo foi visto, e em algum canto, alguem entendeu o que realmente significava beber tudo aquilo. Alguem deve ter entendido porque não era assim tão dificil esconder aquela dor e disfarçar a falta de satisfação em beber um café. Nunca é fácil ter que engolir o fim em apenas um gole. Alguém deve ver, e seria realmente muito importante que alguém conseguisse pará-lo. Para isso não seria necessário muito esforço. Alguem poderia pedir uma informação, ou começar alguma briga. Qualquer um poderia elevar seu tom de voz, ou começar uma discursão. Todos, de alguma forma, se interessavam no rapaz que sentava perto da janela.
Bebeu aquele resto de café, com dor.
O mesmo gosto de antes, que se pelo menos fosse diferente de tudo, consequentemente, seria mais facil de ser reconhecido. Então esse era o fim, aquilo que tinha o mesmo gosto do começo? Levantou o dedo, e imediatamente o garçom o atendeu. Desejou apenas a conta, e enquanto colocava seus livros dentro da bolsa, alguem sentava-se destretenciosamente. Só consegui notar que seu encontro o encontrava quando o garçon anunciou-se presente.
Levantou-se e saiu, ainda com o gosto amargo na boca.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Proibido a entrada

Eles subiram as escadas, felizes, ansiosos, temendo serem pegos. Quatro jovens que haviam roubado a chave do cadeado da última porta do edifício em que moravam. Suas vidas eram as mais tristes, não havia saída, exceto aquela última porta que levava ao lugar mais lindo de todo o mundo. Era o começo da noite e havia manchas laranja naquele céu. Pouco a pouco iam sumindo, engolidas pela noite, que chegava.

Enfim, um final, uma saída: uma porta vermelha. "Proibida a entrada". Tão estranho como poderia ser, eles destrancaram aquela porta nunca aberta anteriormente.

Aberta a porta, viram as grades do portão de ferro. Olharam-se naquele quase-escuro que os invadia, banhando suas caras com o mais puro breu; reconhecendo entre si os sorrisos criminosos que escapavam. Era ali, onde era proibido, onde era alto o suficiente para uma tragédia, ou onde era perfeito para ter os cinco minutos de extrema solidão. O momento perfeito para uma única foto, recordação de um momento anormal de felicidade.

O terraço do prédio há tanto desejado, há tanto comentado naquelas rodas de conversa. Era um prédio infeliz, verdade; mas tinha seu charme. Os amigos planejavam aquele momento há tanto. Agora estavam lá, felizes, jurando segredo perpétuo. O lugar que em 50 anos ainda seria tão belo como hoje.

Sentaram-se em circulo e compartilharam entre si coisas que nunca haviam dito:

- Quando meu pai morreu, eu senti raiva. Quis morrer junto, então me cortei na perna, onde ninguém nunca poderia ver, aqui, na parte de traz do joelho. Esse corte seria eterno, marca da minha revolta.

- Primeiro eu achei que fosse proibido, mas um dia eu descobri que não. Vi meu pai se beijando com um homem estranho, amigo do escritório. Se meu pai faz, eu também posso, não?

- Eu não sou feliz, eu choro todos os dias antes de dormir. Certa noite, eu tentei me matar, e quase consegui. Sinceramente, o mundo não me atrai.

- Eu vomito para ser magro. Odeio ser gordo. Só serei feliz quando emagrecer 28 kg, e até lá, eu espero ter vocês por perto para me socorrer.

Saíram daquele lugar proibido, trancando novamente seus segredos por detrás daquela porta vermelha.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

The present perfect

Seria a ocasião perfeita para fazer nascer uma poesia. Perfeito realmente seria se não fosse a minha incapacidade de rimar Fortaleza com Minas Gerais, ou quem sabe lá outras coisas piores. Uma poesia cairia muitíssimo bem, pois eu sei que ele a acharia bela. Poesia sempre me lembrou flores, e o Thiago adora flores. Talvez eu devesse escrever uma poesia sem rima alguma e entregar-lhe algumas flores. Seria este, o presente perfeito.
Infelizmente, não desejo entregar o presente perfeito. Sei que ele adoraria receber flores, porque afinal de contas, ele adora flores, mas tenho medo de errar na escolha ou não conseguir rimar outras palavras piores. Estou incapaz de rimar poemas com flores, seja lá quais forem.
Talvez, devesse escrever uma música. Mas sei que esse presente seria mais perfeito se viesse de outra pessoa. Não seria a ocasião lembra-lhe que o meu presente não é perfeito, apenas porque foi entregue por mim. Uma música sempre nasce de algum sentimento, e por ele, eu não sei o que sinto. Sei que sinto um Fá sustenido menor e um mísero Ré. Outra pessoa mais habilidosa, quem sabe, consiga encaixar as melhores notas e compor a melodia perfeita que eu quero tanto inventar.
Enfim, eu confesso: infelizmente não sou bom em presentear, pois sempre dou algo que quero ganhar.
Então talvez devesse ser a perfeita ocasião para um abraço apertado. Mesmo sendo, no fundo, no fundo, eu quem esteja sendo presenteado. Poderia ser um abraço casual; eu o esperaria por algum tempo ele sair de casa. Seria a ocasião perfeita para dizer qualquer coisa que estivesse presa por algum tempo.
Mas esse deveria ser o meu presente de aniversário, não o dele.
Pensei então, em lhe dizer que eu pensei nele ontem a noite, enquanto escovava os dentes. Seria engraçado, e talvez, quem sabe, quando ele fosse escovar os próprios dentes, se lembrasse de mim. O presente seria o seu próprio sorriso refletido no espelho. Seria válido, pois eu não o vejo sorrindo muito. Uma desculpa perfeita para ele sorrir de propósito para ele mesmo enquanto escovasse seus próprios dentes antes de dormir. Mesmo se não quisesse, seria bom para ele saber o quanto o sorriso dele é bonito.
Talvez devesse voltar às rimas, ou às flores, ou ao abraço, ou à música. Ou quem sabe, devesse juntar tudo e entregar, que valeria mais. Contudo, não tenho sequer uma caixa tão bela para por o presente perfeito. De nada adiantaria tem a perfeição em uma caixa de papelão surrada e riscada.
Cansado, desisto. Nada entregarei, com medo de errar.
Talvez eu só devesse dizer a ele que o amo. Não, eu não o amo de amor, eu o amo com afeto. Talvez nada entregar seja melhor; o tenho com amor, e isso é o melhor que posso sentir sem. Pode não ser realmente perfeito, mas pelo menos já tenho uma caixa para guardá-lo dentro.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Cascade kisses.

Eu estive me perguntando por muito tempo a mesma coisa. Já eram dez horas, quase onze, e eu poderia ficar lá até cansar. Eu tinha visto o sol nascer, meio quente. Ele não me irrita hoje, apenas brilha enquanto eu estou me deprimindo.
Mas esse não sou eu, ou pelo menos não era. Talvez eu seja isso: um corpo cansado numa cama de hotel. Ainda não descartei a idéia do fuso horário ter mexido comigo profundamente. Mais uma desculpa, ou uma resposta insincera e eu deixo tudo para mais tarde, quando esse sol irritante sumir e vier em seu lugar a noite fria. No frio tudo se destaca, inclusive eu.
São os olhos pesados, nada de doença. Cansei, e isso é visível. Estive cansado, antes de ter me esforçado tanto; agora estou exausto e prefiro não viver por hoje. Deixe que o sol brilhe sem mim.
Tédio - foi o que disseram. Mas quem pode dizer o que é tédio sem estar fora do tédio? O céu quando fica entediado muda de cor? Hoje ele está absurdamente azul quando deveria ser cinza. Talvez até um azul um pouco opaco. Não, ele realmente não deveria existir.
Enquanto ninguém entende, eu vou melhorando. Quando tudo fazer algum sentido, eu estarei entediado e pronto para quebrar o coração de alguém.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Feliz ano novo ?

Eu não havia conseguido dormir; isso é sempre ruim, porque com certeza eu não vou conseguir dormir na próxima noite também. Liguei aquele lindo abajour, e uma luz amarela lembrou que eu estava sozinho na cama. Fazia muito frio lá fora, mas mesmo assim, o ar-condicionado estava ligado no volume mais alto. Eu nunca tinha reparado como aquelas cobertas de lã me faziam ter bons sonhos durante aquela semana inesquecível. Levantei meu olhar para todos os detalhes do quarto. Meses atrás eu tinha visto as fotos da pousada, e tudo que estava na foto, permanecia ali, como se fosse um lembrete de que aquele lugar era meu e de mais ninguém. Tudo estava bagunçado, claro, afinal de contas, se tudo ali fosse impecável não teria a mínima graça. Contudo faltava uma mala e algumas peças de roupa.
Lentamente, sentei na cama, com as pernas cruzadas dentro da coberta. Pus o dedão na boca e comecei a roer a unha, como se aquilo fosse a única coisa que pudesse ser feita. Quando já não havia mais unha, pus os pés no chão, e, de mansinho, abri a porta da varanda, tomando todo o cuidado para não acordar alguém que já não dormia mais ao meu lado. Olhei para trás e constatei: era apenas eu, novamente, na véspera de ano novo, no lugar mais lindo do mundo.
Senti a diferença de temperatura no momento em que abri a porta. Chuviscava, e o ar úmido da madrugada me roubava um beijo por segundo. Alguns passos lentos em direção àquela que deveria ser a visão mais perfeita para um casal em lua de mel: a lua, o mar, o negro das árvores, pássaros no céu. Então, eu deixei a dor sair e chorei uma única gota de dor, que no final, acabou se perdendo nas gotas frias da chuva. De repente, como se despertasse, acordei, e vi que tudo era real. Naquele momento, cabia apenas voltar a dormir; mas não era o bastante. Permaneci, então, acordado, sentando, escutando as gotas caírem com o fim da noite.
Deveria ter bebido algo forte; seria um belo porre. Mas não transferir minha culpa pra ninguém. Eu estava errado, eu deveria pagar pelos meus erros, e me custava admitir estando sóbrio. Normalmente, eu não passo de uma pessoa segura, que se esconde dentro da própria insegurança. Mas naquele dia, eu estava incrivelmente forte. Eu só deveria pensar o máximo possível. Então, sentei no chão, com as costas apoiadas na madeira do quarto, e quando pensei no que pensar, minha cabeça caiu para o lado, e imediatamente cochilei.
E no próximo segundo, já era dia. A baba escorria da pela boca, e os olhos ardiam. O sol nascia tão perto de mim, que, inconscientemente, andei feito sonâmbulo em direção ao mar. Atravessei a trilha de árvores e cheguei à praia. A areia estava incrivelmente fria. Sentei, ainda de pijamas sobre algumas folhas, abraçando minhas pernas, como se elas fossem a única coisa a que um naufrago pudesse se agarrar, e quando o sol estava bem alto decretando o nascer oficial do dia de ano-novo, eu levantei e caminhei em direção ao mar.
As ondas levavam à areia molhada embaixo dos meus, e a cada nova onda, eu me afundava um pouco mais. A sensação era agradável, mas durante alguns minutos, eu pensei em realmente me afundar de verdade. Enquanto me decidia, sentia o salgado na boca trazido pelos ventos fortes. Algumas pessoas apareceram no outro lado da praia. Eles apenas riam e caminhavam, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Era o último dia do ano, e parecia ser o ultimo dia da minha vida também.
Havia areia na altura da minha canela, e quando essas pessoas se aproximaram, me retirei, com dificuldade, daquele buraco recém-formado. Fui mais fundo, até onde a água cobria minha cintura. Lá fiquei, até tomar coragem de ir mais adiante. Teria eu coragem de ir mais adiante? A cada segundo, mais e mais pessoas chegavam. E de repente, eu acordei, pela terceira vez naquele dia. Então, como se estivesse despertando, voltei acompanhado pelos olhares curiosos de todos para a pousada. Naquela hora, eu era um maluco qualquer, de pijamas molhados.
Deitei.
Esperei alguma coisa acontecer. Tentei fazer algo acontecer, mas tudo permanecia dentro do enorme vazio sem significado do último dia do ano. Então, pela segunda vez naquele dia, eu dormi.
Acordei no segundo seguinte, mas não era mais dia. O final da tarde foi enfeitado pelas várias pessoas se divertindo em um possível luau. Sim, o luau me magoava; planejei tanto, e agora ele era apenas uma lembrança de algo ruim. Fui à varanda, e observei o fim da tarde, que não chegava nunca. Naquele lugar, as horas eram difusas. Uma hora cabia dentro de vários momentos de eterna felicidade. Às vezes, a tarde virava noite e manhã, tudo em uma única hora. Eu sentia as costas ardendo, e o gosto do sal. Não ventava, fazia calor; ali o tempo seguia regras.
Então, em um único segundo de distração, a tarde voltou a ser jovem novamente. Suas luzes já não eram mortas, e sim, ofuscantes e belas. Tudo seguido da eterna melancolia indecifrável de coisas belas e infinitas. O que eu deveria fazer? Procurava essas respostas dentro de mim, mas não as achava. Talvez não houvesse resposta, e eu só devesse estar parado, esperando algo acontecer. E foi justamente isso que eu fiz.
No próximo segundo, o céu estava roxo. De longe, eram visíveis as tochas de bambu, dançando no escuro, anunciando o lugar da grande festa que em nada me atraia. De sopetão, levantei e caminhei em direção oposta as luzes, ainda de pijama até o outro lado da ilha. Quanto mais eu me distanciava, mais escuro ficava, e em poucos segundos, tive a nítida sensação de estar sendo seguido. Era tudo tão deserto; nada indicava que do outro lado havia pessoas celebrando a vida. Era perfeito! Sentei e estiquei as pernas, apoiando-se em mim.
Ainda havia luz, quando escutei algum barulho na floresta. Não senti medo, todo mundo ali queria um fim de algo, e comigo não foi diferente. Se fosse alguém terrível, me mataria, e tudo acabaria. Nada seria diferente, eu apenas não sentia medo, pois tudo já havia perdido significado. Não reagi, apenas permaneci parado, sorrindo.
Foi quando uma mão pousou no meu ombro, e pela quarta vez naquele dia, eu dormi.
Acordei, não sei quando, com a certeza de que eu havia dormido demais. Isso é ruim, porque com certeza, eu não conseguirei dormir na próxima noite também. Liguei o abajour, e aquela luz amarela me fez lembrar que deveria não ter ninguém ao lado da minha cama. Mas havia, e era quem nunca deveria ter saído. Chorava, e por trás dos cabelos que tanto me agradavam, vi, pela janela, o céu explodindo em fogos de artifícios. Era um ano novo, que parecia ser o melhor de todos o que eu já havia tido.

sábado, 25 de julho de 2009

Fechar os olhos.

Eu guardava minhas mãos embaixo da mesa, e fazia gestos escondidos. Gestos desprovidos de qualquer significado lógico, que de certa forma me salvavam de exprimir palavras. Ludibriado, senti o mundo ficar lento a cada segundo; nessa hora eu ria em segredo – mas ninguém nada via. Logo, eu abaixava a cabeça e via meus proprios gestos se modificando.
Ao levantar a cabeça, nada era lento; tudo fazia algum sentido que eu ainda não entendia. Havia perdido alguns segundos importantes que faziam as pessoas rir antes do silêncio constragedor de quem senta a mesa para beber com desconhecidos.
Alguém coloca as mãos sobre a calça e lança um olhar de desejo para o copo de cerveja; tudo se resume aquilo. Todos bebem; acabou. Lenvanto-me, sentindo o velho torpor me ludibriar novamente. Ou será a tontura?
Fui seguindo algo, enquanto algo me seguia. Não eram os olhares desconfiados de quem estava sentado; era algo que não sei como definir, mas que exisitia e me intrigava porque era muito óbvio.
Dei voltas e mais voltas; aquilo não me afetava em nada, e eu podia enlouquecer, ainda que lúcido. Todos, sem exceção, procuravam aquilo, e timidamente, olharam para o novo bêbado dançando no breu da noite.
Fechei os olhos e fui; até agora não cheguei.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Eu sabia.

Eu sabia, três minutos atrás;
Foram as luzes que piscaram demais enquanto eu dançava. Eu poderia estar bêbado, ou não; de todas as possibilidades, seria melhor dizer que eu estava livre, com os dois braços enrolados em mim, me segurando firme, como se eu fosse desaparecer pra sempre. A idéia foi se fortalecendo, talvez por causa do álcool, talvez por causa da luz.
E tudo fugiu, três minutos atrás, como se fosse demasiadamente errado eu me amar e não poder ficar comigo mesmo. Como se fosse um delicioso pecado incestuoso tocar os meus próprios lábios enquanto remexia ao som de uma musica que só tocava pra mim. Nossa, eu pulei demais; eu parecia ter vencido algo que eu só sei vencer quando desisto de tudo.
Durante três minutos, eu soltei o fio que me ligava diretamente com tudo. Foi uma simples queda rápida. Talvez tivesse sido o álcool, talvez tivesse sido qualquer outra coisa que outra pessoa possa um dia explicar melhor. Enquanto eu me desgarrava, eu sorria pro nada, por motivos secretos que me envergonham agora.
Alguns olharam e comentaram, outros nem me viram. Aconteceu, e eu acredito – já basta. Talvez fosse um dia difícil, talvez fosse o último dia de algo maior. Movia-se lentamente, mas não por causa das luzes, eu estava assimilando uma nova condição temporária.
Levou algum tempo para eu entender, afinal, ninguém me explicou, e eu talvez não esteja explicando mais. Foram três minutos de graça, que me abasteceram completamente de algo útil apenas a mim.
Agora, eu já não sei de nada, porque eu confessei pecados que foram inventados e que doeram enquanto eram vomitados. Foi tudo esquecido, só ficaram marcas. Toda a dor se dissipou e valeu a pena: estava forte. Agarrando-me percebi que eu era seguro e forte. Não demoraria muito para eu começar a querer sonhar.
Violei com as mãos o que pude violar, e sorri secretamente, do mesmo modo como eu olho para o nada e vejo coisas que ninguém consegue ver. Talvez tenha sido mentira, ou talvez tenha sido real demais para ser de verdade.
Chorei muito, por motivo algum; talvez ninguém tenha entendido: foram apenas três minutos particulares e irrecuperáveis. Minha falta de sentimento foi novamente abastecida, e eu ainda tenho uma eternidade inteira para chorá-los.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Cadarços

O sapato não cabia, mas vestia bem o seu pé, e por isso talvez ele andasse mancando. Quando sozinho, retirava o sapato, e por alguns minutos ele fazia caretas de dor, revelando apenas quando ninguem podia ver, como realmente era a cara da dor. Qualquer sinal de um conhecido, minimo que fosse, ele rapidamente os recolocava, dissimulando as caretas; eram sorrisos de mentira.
Um dia, alguem notou a dor por trás de tudo. Ele negou enquanto pode, mas no final, desistiu de mentir, e assumiu os pés calejados. A partir desse momento, se tornara livre e extremamente vuneravel a qualquer coisa que o machucasse.
Todos andavam de sapatos apertados, e no outro dia, quando ele apareceu com sandalias, todos olharam seus calos, com as mais diversas manifestações de horror. Ele mesmo, olhou para os próprios calos, e novamente fez as mesmas caretas de dor, dessa vez sinceras. Andou de cabeça baixa, por algum tempo.
Foi quando todos se acostumaram um pé com calos tão horriveis.
Pouco a pouco os calos sumiram, e uma vez que já não havia dor, não havia motivo algum para existirem caretas. Já que não havia mais calos, não havia motivo para abaixar a cabeça novamente. Viraram pés normais e livres.
Foi quando todos deixaram de dar nós do sapatos.
E logo, todos cairam, um por um, pisando um nos cadarços dos outros. Naturalmente, eles hoje andam descalços, e seus calos são maiores. Não adiantou manter os pés sobre tanta beleza. Eles sempre foram feios, e assim permaneceram escondidos dentro dos sapatos.
Pernas foram quebradas, e no gesso, várias assinaturas enfeitavam novamente pernas inteiras. Por algum tempo todas as assinaturas cobriam o branco estridente que denunciava uma queda. Os pés continuaram escondidos, e ninguem nunca pode afirmar que os calos continuaram por muito tempo, uma vez que o gesso cobria com desenhos uma falha.
Chegou o dia de algumas pessoas tirarem o gesso. O gesso não era necessário mais; então, algumas pessoas continuaram engessadas, fazendo-se de frageis. Foi quando elas mesmas tropeçaram na própria perna, caindo uma sobre as outras. Cada dia mais machucadas, elas mantinham todos os sinais de aparente fragilidade.
Então, quando todos estavam demasiadamente frageis, um rapaz movia-se, livremente, de pés descalços...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O aluno.

Ele riu, assim, do nada. Quase poderia dizer que ele estava rindo de felicidade; mas ninguém se atrevia. Um sorriso, nada mais, apenas isso. No entanto era tão difícil entender tudo aquilo. Nem mesmo ele deveria entender, afinal de contas, ele se isolava sempre. Nada o impedia de sorrir; mas parecia errado sorrir quando todos tinham motivos para não fazê-los. Talvez por isso tenha se distanciado daqueles rostos sorridente. Era impossível manter-se feliz quando não se sentia a vontade para fazê-lo.
Quando tudo começou, ninguém sabe. Aos poucos ele foi se isolando, ao mesmo tempo em que os outros faziam o mesmo. Não havia razão, ele apenas não se encaixava. Contudo, ele sentia uma leve satisfação em tudo isso. Qualquer um pensaria que ele não era aceito pelo grupo; ele gostava de pensar, ainda que pensassem que ele que estava errado, que o grupo inteiro que não era aceito em seu pequenino universo. Nada disso era desagradável, embora devesse ser; afinal vivemos em comunidade. Aonde ele pertence, então?
Quando tudo começou, ninguém sabe. Aos poucos ele foi descobrindo todo o prazer em seus pequenos segredos, com certo deleite. Nunca se atrevia a contar nada, e por isso o segredo valia tanto a pena. Ele era como um trem bala, passando por pessoas rapidamente, apenas vendo o borrão dos seus rostos e eventualmente olhando para trás com aquela nítida sensação de estar perdendo algo importante. Mas enfim, já passou mesmo.
Era o intervalo entre as aulas de Biologia e Língua Portuguesa. Exatos 20 minutos para fazer um lanche rápido enquanto se conversa com os amigos do colégio. Por certa razão sobre a qual nunca havia prestado atenção, sempre nos intervalos dessas duas aulas, ele se sentia mais alegre. Ao longo do ano, nem uma simples palavra foi trocada durante o intervalo dessas duas aulas. Nem mesmo um lanche rápido foi feito; ele apenas olhava indiferente para tantas pessoas alegres. E indiferente se mantinha; até demais.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Carmem Miranda

É, eu sonhei; descobri que tinha sonhado poucos segundos antes do despertador tocar. Tocar é gentil demais, na verdade ele realmente desperta e faz juz ao nome. Meus sonhos são usualmente enterrompidos, sem justificativa alguma; é o depertador cruel que eu mantenho em meu quarto – é minha a própria desculpa para não sonhar demais.
Ainda faltavam dois minutos. Hoje ele falhou, e eu ainda estou pensando; mesmo após o banho, mesmo após o café da manhã; mesmo agora, ainda penso. É, sem duvida, eu sonhei – e foi um sonho muito feliz, pois eu acordei sorrindo, e sorrindo permaneci por dois minutos. Dois pequenos minutos, que ainda sobravam entre eu viver e eu sonhar. Eu pensava, eu pensei, eu ainda penso.
Dois minutos antes de dormir eu não imaginei que ia sonhar. Nesse tempo curto, eu nem sei se pensei direito ou se apenas me deixei levar. Foram dois minutos que se foram e agora precisam ser preenchidos. Dois minutos sorrindo é mais do que eu posso sorrir; é mais do que eu mereço ter – dois minutos são demais pra qualquer sonho; eles duram pouco.
Então, ele toca, ou melhor, desperta. Ele falhou na sexta feira; é o que marca o calendário. Toda sexta-feira ele falhará novamente. Ainda que nem ao menos atrase um segundo sequer, eu lembrarei da sexta-feira em que ele faltou com a promessa de me manter sem nenhum pensamento e sem nenhum sonho. É, eu sonhei, ele falhou.
Então, ele decide parar de tocar, ou melhor, ele já não desperta, pois eu já me despertei. Eu me encho de coragem para poder enfrentá-lo mais dois breves minutos. E por mais dois breves minutos, eu me atraso novamente, atrasando o relógio. Agora, o relógio vai estar atrasado todos os dias, por dois minutos que fazem toda a diferença. Eu penso, eu sonho, eu me permito atrasar o relógio.
Dois minutos já se foram, e o despertador toca novamente. Quanto desafio! Mais uma vez ele toca, ou melhor, mais uma vez ele lembra que já é hora de despertar. Mais dois minutos? Sigo o ponteiro amarelo lentamente dando uma curva. Sigo novamente o ponteiro amarelo, dessa vez, mais rápido: é a segunda e última curva.
Seria uma última curva se os 360° fossem completos. Não foram, deixaram de ser. Até seria uma curva completa se eu não atrasasse novamente o relógio que continua me atrasando. É, eu sonhei, e a culpa foi do despertador que agora trabalha feito escravo, voltando no tempo, ou melhor, despertando.
Então, mais dois minutos. E mais dois. E mais dois. E mais dois. E mais um noite. E mais um dia. E mais uma outra noite. E mais outro dia. E mais uma semana. E mais um feriado. E mais outra semana. E mais outro feriado. E mais isso. E mais aquilo. E mais um mês. E mais um ano. E mais dois minutos. E mais dois minutos. Parou?
O relógio cansa, e já não desperta. Olho para as mãos cansadas: sou velho demais. Metade da vida passou, e a outra metade está passando. Mais dois minutos pensando, e pensando, e pensando. E então, um anjo me estende a mão: é a Carmem Miranda me chamando; tenho certeza. Ela canta, ela dança, ela flutua, ela sorri. Tenho certeza, é a Carmem Miranda, e ela vai falar alguma coisa. Ela diz...
- Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
O despetador toca, ou melhor, desperta: era hora de acordar.

terça-feira, 26 de maio de 2009

333

Dois prédios se confrontam diariamente em uma avenida. Alinhadas na vertical, uma contra a outra, 50 janelas são diariamente abertas pela manhã e fechadas no final da tarde, exceto em dia de chuva, quando não é sequer permitido pensar em abri-las. As pessoas encarregadas de abrir as janelas costumam chegar antes de todos, no primeiro ônibus da manhã. Ambos os prédios tem suas portas abertas as 08:00 na avenida principal e os empregados não costumam entrar pela porta da frente – essa é a ordem, vinda de alguém superior que não gostam de meras copeiras e faxineiras incansáveis e prestativas. Os empregados mais importantes se encontram na parte de trás dos prédios. Alguns observam o nascer do sol, outros apenas descansam as cabeças na parede de pedra. Prolongam ao máximo o início do expediente. Hora após hora, chegam pessoas diferentes, das mais diferentes tarefas, fazendo as coisas diferentes. Indiferente a tudo, a senhora ruiva nunca abre sua janela; é, na verdade a única pessoa diferente de todos. Então, o cotidiano do prédio os prédios é exatamente o mesmo, exceto pela senhora ruiva, que nunca abre a janela.
Há 49 janelas abertas e faz um belo calor sufocante. Enxergo do outro lado da avenida o meu próprio reflexo tentando trabalhar no mais novo projeto multimilionário encomendado para resolver o problema do trânsito caótico da cidade. Pela minha janela, tudo é cinza, e a única coisa que consigo sentir é o brilho do cabelo da senhora ruiva, ao longe. Nem o sol brilha tanto, nem mesmo consegue dar vida a demasiada morte característica da cidade. A janela fechada me impede de enxergar mais e me obriga a voltar minha cabeça às várias idéias que saiam organizadamente da minha cabeça.
Já não há mais idéias organizadas enquanto uma janela permanece fechada diante o brilho inspirador.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Um passaro no chão

Encostado na parede, ele engolia passivamente o que o tempo lhe empurrava pela boca. Uma breve crise de idade, logo passaria e justificaria todos os comportamentos de outros dias passados. Ansioso, tentava dormir; amanhã era o grande dia pelo qual ele esperava. Ao olhar a janela viu pela primeira vez a cidade dormindo. Chovia calmamente e rápidos clarões cintilavam o céu. Apenas ele sentia, ou o mundo estava acabando mesmo?
Acordou cedo, quase tão cedo para ver as últimas gotas de chuva caírem. Fazia o frio da adolescência acordando para a escola, e, ao se lembrar, sentiu no peito o amargo dos anos. Sentou na cama encostada na parede, com as mãos fechando um belo laço no joelho. Encolheu-se e tentou não pensar em nada, mas era tão impossível que se viu obrigado a pensar novamente no dia de hoje.
Anos atrás, no delicioso frio das manhãs de adolescente que tivera, ele acordou feliz: formatura. Levantou cedo, venceu o frio e foi para a entrega do diploma. A mãe chorou, o pai chorou, ele chorou. Finda a cerimônia poderia pensar em conquistar seu objetivo: presidente da empresa de calçados mais famosa da cidade. Ano após ano, determinado, se esforçou incansavelmente para chegar ao mesmo frio das manhãs e lembrar-se de toda a vida.
Os pássaros despertavam; já não era tão cedo. Passaram-se 30 minutos muito longos antes dele ir banhar-se e fazer a barba. No espelho, o reflexo de um homem sem vida; um objetivo que acabou virando ele. As verdades apareciam timidamente pelo canto do olho: uma única lágrima, gorda e quente, como as lágrimas derramadas pelo fim do noivado. Olhava-se espantado por estar chorando; corou de leve, e vestiu-se, encerrando por vez o espetáculo bizarro fornecido por poucos minutos pelo espelho.
Horas mais tarde, já no incontrolável calor da noite, estava mais calmo. Foi nomeado presidente! Pessoas importantes compareceram, dentre elas a noiva orgulhosa e ainda magoada e a mãe, que chorava olhando para o menino determinado. Venceu na vida e deixou todos orgulhosos.
Uma hipócrita recepção ofertada pela empresa dentro do seu próprio apartamento trouxe certa alegria para o ambiente morto. Flores tinham sido colocadas, e tudo tinha certo tom de diferença: aquilo não era a sua casa, mas o fazia sentir-se melhor. Era o sonho de uma vida vazia, deveria então, ser algo anormal e satisfatório. Empregados serviam bebidas e salgados em bandejas de prata. Tudo era cordial e levemente falso; a combinação perfeita para uma noite memorável.
Juntou-se a janela, e lá ficou parado por alguns momentos, saboreando uma deliciosa bebida em um copo de cristal e observando o movimento de carros do lado de fora. A mulher que um dia foi sua noiva encostou sobre seu ombro e segredou palavras de carinho e afeto seguidas de um belo e sincero sorriso que iluminava belamente a sua face clara; não havia ressentimento algum por parte dela e em meio a tantos sentimentos figurantes, ouvir o perdão de alguém o fez sentir-se um pouco melhor.
A mulher o deixou sozinho, saboreando a vitória com a ânsia que todos pensavam que ele sentia. Então, ao cabo de alguns minutos, a verdade escapava duas vezes no mesmo dia pelo mesmo olho. Outra lágrima exatamente igual a antecedente caia em movimentos lentos, manchando o rosto do homem sem objetivo. Bebeu um último gole e sentou o a taça perto de uma luminária alienígena e um belo vazo de planta artificial em cima de uma mesa encostada no canto, perto da varanda, e num movimento de despedida, se jogou da sacada, almejando novos vôos.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Um rosa no meio

Um belo crepusculo, inevitavel. Sentado em uma pequena mesa dedonda, na minha frente, estava ele, homem sem nome, sem destino, sem dono. Atravessando a janeça o laranja do sol ia contra a sua cara perfilada, absolutamente majestoso. Em uma mão, o livro, na outra uma xicara, e no centro de tudo, uma charmosa rosa branca.
Relaxei os cotovelos sobre a minha mesa e fiquei olhando. Ao passo de algum tempo, ele virou os olhos e me flagrou; era o começo da sua total desconcentração. Com trabalho tentou voltar ao livro, mas já estava vencido. Relaxou os braços e largou o livro; me olhava agora, segurando sua xicara charmosa entre as duas mãos.
Duas mesas, uma em frente a outra, duas pessoas, uma olhando a outra, e no centro de tudo, duas rosas. O garçon passou e eu disse algo no seu ouvido; mas uma de minhas cantadas baratas. Timido, o homem foi em direção a ele, totalmente corado. Disse por mim, ainda muito timido, o que eu lhe segredava. Ele riu, e segredou outra coisa ao homem. Uma coisa que nunca cheguei a saber o que foi, levantei enquanto o garçom ainda caminhava a mim. Dei um tapinha no seu ombro e dispensei seus serviços com um sorriso elegante.
- Posso?
-Claro.
-É café?
-Chá.
-Não gosto de chá.
-Camomila, toda noite.
Bebeu um pouco mais, e mais um pouco, e o final. Então, sorriu. Os nossos cotovelos na mesa, eu olhava, eu me apaixonava sem amor, apenas por diversão. Ele aproximou, chegou bem perto e olhou. Fiz o mesmo. A dama, o vagabundo e a rosa entre os dois. Então, seus labios nos aproxima va, até que, subitamente, um beijo. Apenas um, e fim do sonho.
Madrugada, acordei com gosto de Camomila na boca.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Brilho de um sabado próprio

Semana após semana ela travabalha, restando somente o domingo para rara folga. Uma rotina dura para uma mulher que costumava ser sensível quando mais jovem. Onde havia ela mesma dentro dela? Perguntava a si mesma, procurando uma resposta na imensidão dos seus dias infinitos. Assim foi sobrevivendo com seu extremo raro muito e seu insatisfeito sempre pouco.
Era metade de um sabado, não um inteiro, porque ainda restava o escuro da sexta-feira, mesclando nas nuvens uma aqualera inenarrável, e indescritivelmente linda. A sexta-feira se trsnformava em sábado mais uma vez, e ela jazia imovel na janela, olhando tudo aquilo, procurando no céu algo importante que deveria estar dentro dela.
O sabado se fez por completo. Vê-lo se transformar não foi mais que perda de tempo; a única coisa que achou foi o atraso que não poderia acontecer naquela manhã. Olhar o milagre do dia não era nada mais que o choque de suas lagrimas incoerentes com o frio torturante da manhã que se formou diante de seus olhos.
Cansada, foi ao banho quente. Ligou o chuveiro e fez chover gotas de pecado que a banhavam com a mentira que ela vivia. Aquela não era ela, não poderia ser; impossivel. Como se não aguentasse mais, gritou e se ajoelhou no chão molhado. Estava cansada, mesmo com a noite calma de sono, estava ainda cansada. Ela apenas não sonhava mais como fazia antigamente. Um a um, seus sonhos secaram, e as gotas d’água so lembravam isso.
Então, findo o banho foi ao trabalho. E findo o trabalho, retornou a sua vida. O sábado a empurrava rapidamente para o fim. Curiosamente o dia passou mais rápido, e então, estava ela novamente olhando o fim da tarde e o começo da noite com a melancolia esquecida pela manhã. Pouco a pouco ela ia reparando que aquilo a fazia mais feliz. E ser mais feliz é toda a felicidade que ela poderia ter, era seu tesouro que não cabia dentro dela e teria que dividir com alguém.
O gato dormia solenemente e logo ela o descartou. Não tendo mais ninguém disponível, foi a varanda de sua casa olhar o pôr-do-sol. Sentou-se na cadeira e lá ficou, contando a ela mesma o quanto feliz ela estava, como se isso fosse um grande crime, o que lhe acabava de render uma cara de culpa e prazer. Ela era, enfim, egoista. Toda a felicidade que sentia, pouco a pouco ia transferindo, como se contasse o maior segredo do mundo, para ela mesma. Uma mulher que jazia morta dentro do peito.
Então, voltou a cozinha e espantou o gato do seu sono. Ele a olhou ferozmente, com raiva, jurando vingança. “Gatos são assim, vingativos” - pensou. Pegou uma cerveja na geladeira, coisa que não fazia a muito tempo e voltou para a imensidão do fim da tarde. Sua única pretensão era ser uma bebada, nada mais que isso. Uma vadia que atrai olhares e atenção para ela mesma, enquanto os outros lhe cedem poucos segundos de repreensão.
Estava fora de si, e os vizinhos já cediam os segundos, apontando a risada infernal da mulher. Ela ria alto, porque quase nunca fazia isso. Então, ela ria mais alto, desafiando a si mesma a ser mais feliz do que se sentia. Então, tudo virou um circo, e qualquer um que passava no fim daquela tarde via a mulher na imensidão da tarde que se acabava. Agora, além de bebada ela era louca, pois gritava a quem quisesse ouvir os absrudos cometidos por ela, contra ela.
Por fim, escureceu. Cara mista de vergonha e orgulho. Deitou-se na cama, já sem felicidade alguma. A festa tinha seu fim. Ainda sorrindo sem motivo, orgulhava-se de não ter fumado cigarro algum.